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Crítica | Direto dos anos 1990, À Paisana tem uma boa premissa, mas tropeça

Chegou ao streaming, À Paisana (Plainclothes), com direção e roteiro de Carmen Emmi. Vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Sundance 2025, o filme mergulha no universo queer dos anos 1990 acompanhando um policial que, enquanto prende homens por indecência, começa a encarar a própria identidade e orientação.

E é aqui que Tom Blyth segura o filme com o Lucas que é um personagem em conflito constante, dividido entre o que faz no trabalho e o que começa a sentir fora dele. Essa contradição move a narrativa e sustenta os momentos mais interessantes da história.

Com uma atmosfera tensa e uma proposta estética que remete a fitas VHS, o filme tenta recriar uma época em que tudo era mais escondido e menos imediato. A intenção é clara em colocar o espectador dentro de um período em que se descobrir era, antes de tudo, um risco.

A história

À Paisana

Voltamos aos anos 1990, em uma Nova York bem diferente da atual. Lucas Brennan trabalha como policial à paisana em um shopping, observando homens que buscam encontros discretos. Quando identifica algum possível envolvimento, ele conduz a situação até o momento da “indecência” e então outros policiais entram em ação para realizar a prisão.

É um processo repetitivo, quase mecânico, que com o tempo começa a desgastar o próprio Lucas. O trabalho deixa de fazer sentido, ainda mais quando ele percebe que muitos dos detidos apenas pagam multa e seguem suas vidas, mantendo tudo em anonimato.

Com isso, um novo policial é designado para substituí-lo, enquanto Lucas passa a se afastar dessa rotina. Só que é nesse intervalo que ele conhece Andrew, personagem de Russell Tovey, e a dinâmica muda completamente.

Os dois iniciam um relacionamento escondido, intenso, marcado por encontros que funcionam como fuga da realidade. Um dos momentos mais marcantes acontece em um viveiro, onde se abandona a sutileza e assume romance entre os dois amantes.

O segredo

O que começa como escape rapidamente vira problema. Quando Andrew descobre que Lucas é policial, o envolvimento se rompe imediatamente. A relação, que já era frágil por natureza, se desmorona e deixa Lucas lidando com a perda de um dos poucos espaços onde ele podia ser ele mesmo.

Paralelamente, Lucas, ignorando limites de um policial, passa a investigar Andrew por conta própria. Essa decisão leva a uma descoberta ainda mais delicada em que Andrew é casado, tem filhos e atua como pastor numa igreja local.

Ao confrontá-lo, Lucas expõe não só Andrew, mas toda a estrutura de vida que ele mantinha escondida. E como se não bastasse, surge um novo conflito envolvendo o passado da própria família de Lucas, quando uma carta antiga coloca em dúvida a história de seu pai. E tudo isso, por Lucas ter usado no nome do seu pai como pseudônimo na relação com Andrew.

Vale a pena?

À Paisana tem uma trama muito forte. Um policial que participa ativamente de um sistema enquanto se descobre, a trama ganha ainda mais camadas quando adiciona um relacionamento com um pastor que também vive uma vida dupla.

Carmen Emmi constrói bem esse cenário de repressão e silêncio. Os anos 1990 não são apenas pano de fundo, eles influenciam diretamente as escolhas dos personagens e a forma como eles lidam com seus próprios desejos.

Porém os problemas surgem com a estética de VHS que funciona no começo e com o tempo ela passa a atrapalhar mais do que ajudar na narrativa. A imagem com excesso de interferência cansa e dificulta o entendimento, principalmente em momentos que pediam mais clareza, ao trazer uma história com tantas reviravoltas.

Ainda assim, o filme se sustenta nas atuações. Tom Blyth e Russell Tovey funcionam bem juntos, transmitindo a sensação de um relacionamento que existe mais como escape do dia a dia que como algo para “felizes para sempre”.

No fim, À Paisana entrega uma história intensa, cheia de conflitos e boas ideias, mas que acaba se perdendo na forma como decide contar sua história. É interessante, tem momentos fortes, mas exige paciência do telespectador para lidar com suas próprias escolhas.

Ficha técnica

Nota: 3 (de 5)

À Paisana

Estados Unidos / Reino Unido
2025 • cor • 97 min

Direção e Roteiro
Carmen Emmi

Produção
Colby Cote, Arthur Landon, Eric Podwall, Vanessa Pantley

Elenco
Tom Blyth, Russell Tovey, Maria Dizzia, Christian Cooke, Gabe Fazio, Amy Forsyth

Fotografia
Ethan Palmer

Montagem
Erik Vogt-Nilsen

Trilha Sonora
Emily Wells

Agradecimentos a Filmelier+ pela produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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