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Crítica | O Mago do Kremlin revela o jogo de poder na Rússia

Lançado durante a pandemia, O Mago do Kremlin, de Giuliano da Empoli, trouxe um romance sobre os bastidores da política russa. Baseado em pessoas reais, o livro fez um enorme sucesso, chamando atenção dos cinemas e ganhando uma versão dirigida por Olivier Assayas.

Trazendo a construída ascensão de Vadim Baranov, vivido por Paul Dano, seu personagem é inspirado em Vladislav Surkov, figura central na ascensão do jovem Vladimir Putin ao poder.

Para isso, O Mago do Kremlin imagina uma entrevista com Vadim Baranov, recurso eficiente para condensar décadas de história, mas que também torna a narrativa mais expositiva em alguns momentos, enquanto ele reconta sua juventude e como entrou na política, mudando a história da Rússia.

Aqui, Vadim é um jovem que teve uma liberdade cultural, estudou teatro e viveu uma juventude revolucionária que pedia mudanças na política, enquanto crescia profissionalmente e se tornava diretor de teatro.

É nesse contexto que Vadim conhece o grande amor da sua vida, Ksenia (Alicia Vikander), mas a vê ir embora após as investidas de Dmitri Sidorov (interpretado por Tom Sturridge), empresário que cresceu na Rússia com um banco privado.

Se para alguns a derrocada do amor traz depressão, Vadim investe na profissão, em uma transição mais simbólica do que orgânica, chamando a atenção de Boris Berezovsky, quando acompanhamos sua passagem dos palcos para a televisão.

Enquanto isso, todos os olhares se voltam para o então presidente Boris Yeltsin, que precisava preparar terreno para seu sucessor. Com problemas de saúde, chegam a montar um estúdio dentro de sua casa, simulando que ele ainda estava em dependências oficiais do governo.

O mundo estava mudando muito rápido, de forma caótica, e era necessário acelerar ainda mais para a chegada de um novo soberano na política.

A chegada de Putin

O Mago do Kremlin

É aqui que temos o ponto central do filme, com Vadim indo visitar Putin, ao lado de Boris Berezovsky, tentando convencê-lo de que era o nome certo para suceder Yeltsin. A grande questão é que Putin vinha da inteligência russa e questionava se deveria abandonar seu cargo em troca do controle do país.

Se em um primeiro encontro a resposta é negativa, Putin encontra Vadim novamente a sós e revela o desconforto em não querer ser controlado por Berezovsky. Vadim poderia se tornar um conselheiro “não-oficial”, o chamado “Mago do Kremlin”, mas essa escolha dependeria apenas dele.

A chegada de Vadim marca não só a queda de Berezovsky, que se torna uma figura indesejada em seu próprio país, como também a consolidação de um novo presidente que rapidamente conquista a simpatia popular. Mas isso levanta a questão: até onde vai esse controle?

Opinião

O Mago do Kremlin é o mais próximo que temos de uma representação possível da Rússia. Funciona melhor como fantasia política do que como reconstrução histórica, enquanto o filme de Olivier Assayas transporta para o cinema as ironias do livro e a construção desse jogo de poder.

Ainda assim, é um filme voltado para quem já se interessa pelo tema, funcionando melhor como estudo político do que como drama tradicional, o que naturalmente não é pra todos os públicos.

O longa não poupa ninguém ao retratar o fim das oligarquias e a consolidação de um movimento unilateral por parte do novo governo.

Se antes de entrar no poder Vadim enxergava liberdade cultural e política, isso não se mantém quando ele passa a integrar o sistema.

Ao mesmo tempo, o filme também aborda a crise da Crimeia em 2013, sugerindo a ligação de Vadim com ações que culminaram na anexação da região, ampliando o peso político da narrativa.

Paul Dano entrega um Vadim Baranov calculista, cuja formação pessoal ajuda a explicar sua posição ambígua. Entre um avô aberto a ideias diversas e um pai ligado ao governo, ele se torna o ponto de equilíbrio entre pensamento e pragmatismo.

Já a caracterização de Jude Law como Vladimir Putin é impressionante, criando uma figura cheia de nuances. Mesmo não sendo o protagonista, suas decisões moldam diretamente os acontecimentos e o olhar de Vadim sobre o país.

O suicídio de Boris Berezovsky também aparece, tratado sem afirmações diretas, mas inserido em um contexto de mortes suspeitas que reforçam o clima de tensão ao redor do poder.

No fim, O Mago do Kremlin não poupa ninguém e entrega uma narrativa que, mesmo assumidamente ficcional, convence ao apresentar uma versão plausível de como figuras nos bastidores podem influenciar diretamente o rumo de um país.

Ficha Técnica

Nota: 4 (de 5)

O Mago do Kremlin

França • 2025 • cor • 136 min

Estreia: 09/04

Direção Olivier Assayas

Roteiro Olivier Assayas, Emmanuel Carrère

Baseado em livro de Giuliano da Empoli

Produção Olivier Delbosc, Sidonie Dumas

Elenco Paul Dano, Alicia Vikander, Tom Sturridge, Will Keen, Jeffrey Wright, Jude Law

Fotografia Yorick Le Saux

Montagem Marion Monnier

Distribuição: Imagem Filmes

Agradecimentos a Imagem Filmes pela produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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