A Globo apresentou no Rio2C a pesquisa Cultura no Espelho, conduzida em parceria com a Quaest e exposta pela diretora de Pesquisa e Conhecimento da Globo, Suzana Pamplona, e pelo cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes. Com quase 10 mil entrevistados presenciais, o estudo mapeia como os brasileiros enxergam e vivem sua própria cultura, e o retrato que emerge é mais contraditório do que se poderia esperar.
O dado de abertura já diz muito: um em cada quatro brasileiros não soube definir o que é cultura quando perguntado de forma espontânea. Entre pessoas com escolaridade até o ensino fundamental, esse número sobe para 41%.
Quando a pergunta muda para “cultura brasileira”, o quadro se reorganiza. Comida e música entram com força. O arroz com feijão lidera com 64% das menções como prato mais representativo do país. Na música, o sertanejo é o favorito de 26% dos entrevistados e também o mais representativo para 25%, mas o samba aparece como símbolo da identidade nacional para 23%, mesmo sendo a preferência de apenas 9%. O gospel, por sua vez, é ouvido por 16% dos brasileiros mas associado à identidade cultural do país por apenas 5%.
O que consumimos e o que dizemos representar o Brasil
Essa tensão entre consumo real e identidade declarada é um dos achados mais reveladores do estudo. O país efetivamente ouve sertanejo e música religiosa, mas quando perguntado o que representa o Brasil, aponta o samba. É uma distinção entre o gosto vivido e o símbolo construído.
A mesma lógica aparece nos ídolos nacionais. No esporte, Ayrton Senna com 22% e Pelé com 21% somam 43% das menções espontâneas, deixando Neymar com apenas 5%. Na música, Roberto Carlos lidera com 6%, sem que nenhum nome contemporâneo consiga aglutinar o país em torno de uma referência compartilhada.
Quem acessa cultura no Brasil
O estudo mapeou oito dimensões de vivência cultural, do consumo de mídia à frequência em museus e teatros. O resultado é desigual: cultura religiosa e de mídia são as mais praticadas; cultura erudita, a menos. Apenas 16% dos brasileiros leem com frequência, sendo a Bíblia a obra mais citada.
Ao cruzar capital econômico e capital cultural, a pesquisa revela que 85% dos brasileiros têm baixo acesso nos dois eixos simultaneamente. Apenas 2% concentram alto poder aquisitivo e amplo repertório cultural. Mas o dado mais relevante está no grupo de 9% que, mesmo com baixa renda, constrói alto capital cultural: o fator determinante não é o dinheiro, mas a escolaridade da mãe, o hábito de leitura na infância e o exemplo dentro de casa.
Representatividade em falta
Apesar da forte identificação com comida e música, apenas 20% dos brasileiros dizem se sentir muito representados pela cultura brasileira atual. Na publicidade, o índice cai para 10%. Quase metade afirma não se sentir representada pelas propagandas de forma alguma.
A pesquisa completa está disponível em gente.globo.com.


