Um simples apagão é suficiente para desencadear uma longa jornada interior em Bala perdida na noite, romance de estreia do escritor, tradutor e estudante de filosofia Max Leite. Publicado pela Minimalismos, o livro acompanha um jornalista e aspirante a escritor que fica impossibilitado de enviar um e-mail depois que uma queda de energia mergulha seu apartamento no escuro.
O que começa como um contratempo cotidiano rapidamente se transforma em uma experiência física e psicológica. Cercado pelo silêncio, o protagonista passa a revisitar memórias, relacionamentos e acontecimentos recentes enquanto tenta interpretar o que representa o silêncio de Mônica, sua companheira.
O escuro como ponto de partida
Construído a partir de um fluxo contínuo de consciência, o romance mistura acontecimentos do presente com lembranças que atravessam situações comuns e outras mais inusitadas.
A narrativa utiliza uma montagem paralela para acompanhar, ao mesmo tempo, a caminhada do protagonista dentro do apartamento sem luz e episódios de seu passado recente. Entre eles está o colapso nervoso e público do terapeuta de uma bartender, personagem que chega à vida do narrador de maneira pouco convencional.
Nesse movimento, a falta de luz deixa de ser apenas uma circunstância narrativa e passa a funcionar como uma metáfora para o isolamento e a dificuldade de comunicação. A hiperconexão proporcionada pelas redes sociais contrasta com a dificuldade dos personagens em estabelecer relações verdadeiramente próximas.
O romance também explora o medo da rejeição, a fragilidade dos relacionamentos e a maneira como a mente pode alterar ou projetar acontecimentos.
Entre Kafka, Pessoa e a filosofia
A literatura e a filosofia ocupam espaço importante na construção da obra. O livro começa com um poema e utiliza epígrafes que aproximam o relativismo de Protágoras de uma situação banal em uma fila de fast food.
A combinação resume uma das tensões centrais de Bala perdida na noite: colocar lado a lado questões filosóficas e a experiência cotidiana de um indivíduo diante de suas próprias angústias.
Kafka e Fernando Pessoa aparecem entre as principais influências literárias apontadas por Max Leite. O autor também incorpora à narrativa sua formação em Letras e o interesse pela filosofia.
“Eu me considero um minimalista, inclusive e talvez principalmente na escrita. Por vir da poesia, sou atraído pelo adensamento na experiência de leitura: o dizer mais com menos”, afirma.
O prefácio é assinado pelo escritor, jornalista e professor Márwio Câmara, que destaca no livro o uso de ironia e metaficção para discutir o próprio lugar da literatura em uma sociedade marcada pelo utilitarismo e pelas performances digitais.
Estreia de Max Leite na ficção

Nascido no Rio de Janeiro em 1987, Max Leite é formado em Letras e possui pós-graduação em Língua Inglesa e suas Literaturas. Também atua como tradutor e revisor profissional e cursa Filosofia na Universidade Católica de Petrópolis.
Antes do romance, publicou o conto Antes do pôr do sol na Amazon e teve um soneto selecionado para a coletânea Sonetos do Selo Off Flip. Também escreveu resenhas para o antigo portal HomoLiteratus.
Com 98 páginas, Bala perdida na noite foi publicado pela Minimalismos em 2026 e está disponível para compra pela editora.


