Quando Coringa chegou aos cinemas em 2019, abriu uma oportunidade para explorar todo um universo de vilões do Batman em filmes solo. Embora a Marvel já tivesse apostado nessa proposta com Venom, em 2018, a DC acabou se concentrando no sucesso do Coringa, retomando esse caminho apenas em 2026, com Cara-de-Barro, desta vez dentro do universo compartilhado da DC Studios. Dirigido por James Watkins, o longa aposta no terror e conta com um roteiro de Mike Flanagan, de Doutor Sono e da nova adaptação de Carrie, a Estranha, em parceria com Hossein Amini.
E, se você tem entre 30 e 40 anos, provavelmente se lembra de Batman: A Série Animada, que surgiu no começo dos anos 1990, após o sucesso dos filmes de Tim Burton, e acabou marcando a história da animação. Foi nela que vilões como o próprio Cara-de-Barro ganharam versões atualizadas e praticamente definitivas, que serviram de inspiração para essa nova interpretação do personagem.
Nos quadrinhos, Cara-de-Barro também é lembrado por sua participação na Saga Silêncio, em que assumiu a aparência de Jason Todd, o Robin que havia sido assassinado pelo Coringa com um pé de cabra. A revelação causou tanto impacto que ajudou a abrir caminho para o retorno definitivo de Jason, posteriormente ressuscitado graças às alterações na realidade provocadas pelos socos de Superboy Prime, durante os acontecimentos ligados à Crise Infinita.
Quando vemos o novo trabalho de James Watkins e Mike Flanagan, percebemos toda essa bagagem que influenciou a criação de um dos filmes mais intrigantes dos últimos tempos. E é justamente o que se espera de um personagem que deixa a alcunha de vilão do lado de fora para assumir seu devido protagonismo.
A história

Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é um ator que cresceu nas ruas de Gotham City e conseguiu construir uma carreira promissora em Hollywood. Bonitão e em ascensão, Matt tem tudo o que deseja, mas, ao dançar na pista com a mulher de um chefe do crime organizado, acaba se metendo em maus lençóis.
Atacado no meio da noite e com o rosto completamente desfigurado, Matt tenta responsabilizar os culpados, mas acaba perdendo todo o seu dinheiro em um processo que também envolve diversas cirurgias plásticas, sem alcançar o resultado esperado.
Com a carreira interrompida, Matt é obrigado a trocar o luxo por um apartamento furreca e sujo, onde precisa viver escondido dos curiosos e de qualquer pessoa que possa reconhecer o ator que um dia foi.
E é assim que, nessas idas e vindas, ele acaba conhecendo a dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie). Conhecida por desenvolver um tratamento experimental capaz de restaurar tecidos do corpo humano, Caitlyn reluta em compartilhá-lo com Matt, por acreditar que ele deseja apenas uma solução estética, enquanto ela pretende ajudar pessoas que tiveram seus corpos castigados pelas guerras.
Disposto a aceitar todos os riscos, Matt convence a doutora a incluí-lo no tratamento experimental. E assim, conforme os dias vão passando, as cicatrizes de outrora ficam para trás, com Matt voltando a ser o homem que sempre foi.
Mas a que preço? Em uma luta contra o próprio corpo, Matt começa uma jornada na qual precisa entender onde realmente foi se meter.
Muito além do terror

Por mais que Superman surja nos primeiros segundos de tela, lembrando ao público que estamos diante de uma produção da DC Studios, Cara-de-Barro não é um filme de super-heróis e tampouco navega por esse gênero. Adotando um suspense que flerta constantemente com o terror corporal, o longa apresenta uma personalidade marcante, reforçando a ideia de que não precisa ficar preso às conexões com um universo cinematográfico ainda maior.
Trazendo influências que vão de Batman: A Série Animada a clássicos como A Mosca, Cara-de-Barro apresenta um Matt Hagen atormentado por ver sua carreira em ascensão ser interrompida de maneira brutal, justamente quando começava a conquistar tudo aquilo que sempre desejou. E é nessa relação entre a aparência e a identidade que o filme encontra um de seus maiores acertos, mostrando que o protagonista não deseja apenas recuperar o rosto, mas também a vida e o reconhecimento que perdeu.
Sua relação com a dra. Caitlyn Corr navega entre a amizade, o ciúme e os anseios sobre até onde essa aproximação pode chegar. E o medo de voltar a ser um homem “quebrado” diante da sociedade acaba levando Matt a recorrer a doses excessivas do tratamento desenvolvido pela doutora, totalmente à revelia dela.
E é justamente nesse ponto que o terror corporal ganha força, com Matt descobrindo que recuperar sua antiga aparência não significa necessariamente recuperar o controle sobre si mesmo. O tratamento que deveria devolver sua vida acaba se transformando em uma ameaça, tornando cada mudança em seu corpo um lembrete de que talvez não exista mais um caminho de volta.
Enquanto isso, Matt vai juntando as peças e descobrindo que algumas pessoas se aproveitaram de sua fragilidade enquanto ele estava em seu pior momento. Ao procurar o melhor amigo e também seu advogado, percebe que não pode confiar em ninguém e que talvez as habilidades que vem desenvolvendo possam ser ideais para colocar sua vingança em prática.
Vale a pena?

Cara-de-Barro, à primeira vista, pode parecer um vilão sem apelo e que talvez não merecesse um filme próprio, mas, depois de assistir ao longa, você se pergunta onde esse personagem esteve durante todo esse tempo.
Reunindo características de diferentes versões do personagem nos quadrinhos, Cara-de-Barro se afasta do arquétipo tradicional de vilão ao adotar uma tragédia pessoal que ajuda a compreender suas motivações, mesmo sem justificar todas as suas atitudes. E, por mais que seja uma jornada que outros personagens, como o próprio Coringa, já tenham percorrido, o protagonista consegue estabelecer uma identidade própria, justificando sua existência como obra independente.
Tom Rhys Harries consegue dar vida a um personagem amargurado, que tem medo de perder tudo aquilo que conquistou. Seja ao interpretar Matt com o rosto deformado no começo da história, seja nos momentos em que perde o controle sobre o próprio corpo, o ator empresta ao personagem uma vulnerabilidade convincente, fazendo com que o público continue torcendo por ele, mesmo diante de suas escolhas.
Naomi Ackie, por sua vez, funciona muito bem ao lado de Tom Rhys Harries, e sua dra. Caitlyn Corr se torna fundamental para que o filme funcione. Seja ao resistir aos desejos de Matt ou ao desenvolver uma relação de amizade que beira o flerte, a personagem também encontra nele uma oportunidade de reconhecimento pelo próprio trabalho, o que torna ainda mais complexa a relação entre os dois.
Para os fãs dos quadrinhos e de Batman: A Série Animada, Cara-de-Barro ainda vai além, mostrando Matt perder o controle sobre suas habilidades e descobrir que pode assumir a aparência de qualquer pessoa, além de revelar sua “verdadeira forma”, uma criatura monstruosa feita de barro, exatamente como no desenho animado.
Praticamente perfeito em sua proposta e na caracterização do protagonista, Cara-de-Barro tinha tudo para ser um erro, mas acaba se tornando um dos maiores acertos da DC Studios nos cinemas. E ainda nos mostra que, mesmo dentro de um universo compartilhado, existem muitos personagens que poderiam seguir esse mesmo caminho, explorando suas próprias histórias sem necessariamente depender de um super-herói para justificá-las.
Trailer
Ficha técnica

Cara-de-Barro (Clayface)
DireçãoJames Watkins
RoteiroMike Flanagan e Hossein Amini
ElencoTom Rhys Harries, Naomi Ackie, Max Minghella, Eddie Marsan, Joshua James e David Dencik
GêneroTerror, suspense
Duração108 minutos
DistribuiçãoWarner Bros. Pictures
Mais informações
ProduçãoDC Studios, 6th & Idaho Productions
Ano2026


