Crítica | Minha Namorada Otaku mistura romance, mangás e o desafio de seguir os próprios sonhos

Produção independente venezuelana aposta na cultura otaku, porém vale mais pela curiosidade do que pela obra em si

PaísVenezuela

Direção e roteiroEdio Raven

ElencoMiguelángel Hidalgo, Karla Vieira, Frank Coello e Subotic Kelliens

GêneroRomance, drama

Distribuição no BrasilElite Filmes

A cultura japonesa conquistou um espaço cada vez maior na América Latina, especialmente por meio dos animês e mangás, que deixaram de ser apenas um entretenimento de nicho para se tornarem parte do cotidiano de diferentes gerações. E é justamente essa relação entre fãs, criatividade e identidade que serve de ponto de partida para Minha Namorada Otaku (Mi Novia Otaku), produção venezuelana de 2023, lançada no Brasil pela Elite Filmes com o título Meus Dias com Ela. Escrito e dirigido por Edio Raven, o longa utiliza esse universo para construir um romance sobre escolhas pessoais e os desafios de seguir os próprios sonhos.

Porém, o resultado é daqueles em que você compreende a proposta, mas termina com a sensação de que faltou alguma coisa na tela. E devo confessar que, em determinado momento do filme, estava mais curioso em conhecer a Venezuela pelos olhos da equipe de produção do que acompanhar a maneira como a cultura otaku seria representada na história.

Mas, deixando essas impressões iniciais de lado, vamos à história.

A história

Existe um mangá venezuelano que faz muito sucesso na internet. Chamado Rey de Fuego, a obra conquistou o público, mas ninguém sabe que sua criação é de Manuel Cavalier (Miguelángel Hidalgo), um jovem que prefere manter sua identidade em segredo.

Um dia, ao pedir acesso ao Wi-Fi de uma cafeteria, Manuel acaba revelando seu endereço de e-mail e, sem querer, tem sua identidade descoberta por Eugenia Rangel (Karla Vieira), uma influenciadora bastante conhecida. O encontro dá início a uma amizade que evolui quando Eugenia pede para colaborar com Rey de Fuego, aproximando os dois e abrindo espaço para uma relação que começa a ganhar contornos românticos.

Enquanto essa amizade se desenvolve, muitos acreditam que os dois estão namorando, mas Manuel mantém uma postura extremamente respeitosa e tímida diante de Eugenia, o que acaba dando à relação aquele tom característico dos romances japoneses encontrados em diversos mangás.

Só que, quanto mais se dedica ao mangá e à convivência com Eugenia, Manuel percebe que está se afastando de seu sonho de estudar nos Estados Unidos. Com uma bolsa de estudos aprovada, ele sabe que precisará se despedir da jovem, justamente quando começa a perceber que não deseja ver aquela relação chegar ao fim.

O que ele pode fazer?

Uma produção independente com identidade própria

Sincero em sua proposta, mas sem apresentar atuações igualmente convincentes, Minha Namorada Otaku é uma obra curiosa que, apesar de suas boas intenções, encontra dificuldades para conquistar o espectador.

Miguelángel Hidalgo interpreta um garoto tímido, com características facilmente identificáveis nos protagonistas de mangás românticos, mas sua entrega acaba soando apática em diversos momentos. Com pouca expressividade e sem conseguir transmitir plenamente os conflitos do personagem, Manuel se torna um adolescente confuso que, embora tenha motivos para despertar nossa torcida, carece de uma energia capaz de sustentar o envolvimento emocional com sua trajetória.

Karla Vieira, por sua vez, é quem praticamente segura o filme sozinha. Sua Eugenia Rangel é uma otaku bastante característica, que mistura palavras japonesas ao espanhol e apresenta comportamentos facilmente reconhecíveis por quem acompanha esse universo. Ao mesmo tempo que chama atenção por onde passa, ela revela uma personalidade extremamente nerd em sua intimidade, criando um contraste interessante entre sua imagem pública e a maneira como se comporta quando está à vontade.

Parte de Minha Namorada Otaku também aposta em situações constrangedoras, especialmente nas interações entre os protagonistas, que tentam reproduzir o humor e os momentos embaraçosos tão comuns aos mangás românticos. Mesmo quando essas cenas não funcionam plenamente, conseguimos comprar a proposta e, em determinados momentos, torcer para que Manuel e Eugenia encontrem um caminho juntos.

Entretanto, existe uma diferença entre reproduzir características de um gênero e conseguir transformá-las em uma experiência cinematográfica envolvente. O filme reconhece diversos elementos dos romances japoneses, especialmente a timidez exagerada do protagonista e as dificuldades de expressar sentimentos, mas nem sempre encontra a naturalidade necessária para que essas referências funcionem fora das páginas de um mangá.

No fim, Minha Namorada Otaku acaba valendo mais por ser uma produção venezuelana que nos apresenta um país palpável, com pessoas, lugares e situações distantes da imagem frequentemente associada à Venezuela no noticiário, do que propriamente por sua abordagem da cultura japonesa e da maneira como ela é interpretada pelos fãs ocidentais.

Bem-intencionado, o filme tenta apresentar um romance simpático, mas tropeça na execução e entrega uma experiência irregular, que provavelmente será mais lembrada pela curiosidade de seu título e de sua origem do que pela qualidade do resultado.

Ficha técnica

Minha Namorada Otaku

Direção e roteiroEdio Raven

ElencoMiguelángel Hidalgo, Karla Vieira, Frank Coello e Subotic Kelliens

GêneroRomance, drama

PaísVenezuela

Ano2023

ProduçãoDespertar Films

Mais informações

Distribuição no BrasilElite Filmes

Título original: Mi Novia Otaku

Título brasileiro: Meus Dias com Ela

Fotografia: Carlos Ledezma

Trilha sonora: Francisco Romero

Avaliação
2,5/5
JWave
Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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