Com doze anos de trajetória marcada pela defesa da equidade de gênero e da inclusão no audiovisual, a Segredo Filmes se consolida como um dos nomes mais consistentes no cinema independente brasileiro. Fundada e dirigida pelas cineastas Josi Varjão e Lilih Curi, a produtora vem construindo uma filmografia sensível e contundente, com obras que tratam de temas como violência doméstica, maternidade compulsória, adoção, lesbofobia e diferentes tipos de deficiência — sempre com a mulher no centro das narrativas.
Entre os filmes já lançados estão Carmen (2013), que trata da deficiência auditiva, e Teresa (2014), que aborda as camadas sociais enfrentadas por uma mulher negra abandonada pelo marido. Mais recentemente, Preciso Falar Sobre ELA discutiu os impactos da Esclerose Lateral Amiotrófica. A produtora também se destaca por buscar representações complexas, fugindo de estereótipos. “Ninguém é uma coisa só”, afirma Lilih. “Carolina, por exemplo, não é só uma mulher com deficiência, é também uma artista, uma nordestina. Os nossos filmes falam diretamente do feminino, das questões do nosso gênero.”
O ano de 2025 será movimentado para a Segredo Filmes. Dois curtas documentários estão em fase de finalização: Restauro, que parte de fotografias e memórias fragmentadas da infância de Josi Varjão, e Moira, que acompanha uma protagonista com deficiência visual causada pela Síndrome de Stargardt. Também está em pré-produção o curta de ficção Angélica, enquanto Anastácia — protagonizado por Josi e com roteiro e direção de Lilih — circula por festivais. O filme foi um dos cinco brasileiros selecionados para o mercado do 47º Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand, na França, por meio do Kinoforum e SPCine.
Cinema como denúncia e construção de identidade

Para as diretoras, a ficção se tornou uma forma de sobrevivência emocional diante das violências vividas e denunciadas. “Os nossos filmes são denúncias, fazem pensar”, explica Lilih. “A gente está sempre num lugar de invisibilidade — sendo mulheres, lésbicas, e no caso de Josi, mulher negra e nordestina. Por isso fazemos ficção: documentar seria doloroso demais.”
Essa perspectiva crítica se traduz também na defesa de políticas públicas. Josi Varjão é enfática ao apontar a necessidade de cotas para mulheres cis e trans no audiovisual: “Temos agora os indutores nos editais, mas isso não resolve. Somos mais de 50% da população consumindo o que os homens criam. Precisamos de cotas como política pública nacional. Isso é feminismo: equidade de direitos.”
Acessibilidade como prática social e herança pessoal
A acessibilidade está no centro da atuação da Segredo Filmes, tanto nas narrativas quanto na forma de produção. A experiência familiar com a deficiência — o pai de Lilih era surdo, o de Josi, deficiente físico — influencia diretamente nas escolhas temáticas. “Acreditamos na acessibilidade como prática social. Isso é o mínimo que a gente pode fazer com os nossos conteúdos”, afirma Josi.
Esse compromisso se estende para além das telas. A produtora realiza ações de formação e difusão, como a Mostra Acessível de Curtas e o Cineclube Clara de Assis, além de manter uma atuação contínua em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em 2025, a produtora prepara novos longas e séries, com recursos captados por prêmios como o PNAB/BA e o LPG Salvador.
A trajetória da Segredo Filmes reafirma o poder do cinema como espaço de escuta, denúncia e encontro. Como sintetiza Lilih Curi: “Nosso feminismo é plural. Que as diferenças sejam motivo para as pessoas se conhecerem e não se apartarem. Que a gente contribua para a criação de mais conteúdos dirigidos e protagonizados por mulheres.”

