A poeta mineira Isadora Barcelos acaba de lançar seu primeiro livro, Dente de leite, pela Crivo Editorial. A obra foi celebrada em Belo Horizonte no dia 25 de julho, e reúne poemas que atravessam as margens do português e do espanhol, refletindo a vivência migrante da autora, que desde 2018 divide sua vida entre o Brasil e a Argentina.
Mais do que uma reunião de versos, o livro nasce de um percurso afetivo e linguístico, costurado pela experiência do deslocamento. A decisão de transformar os poemas em um volume surgiu no final da pandemia, quando Isadora inscreveu o projeto em um concurso de publicação em Buenos Aires. “Foi um impulso importante para começar a organizar e revisar os poemas. Até então, eram textos dispersos, escritos em cadernos e notas de celular, muitas vezes já cruzando os dois idiomas”, explica.
Portunhol como território poético
Dente de leite assume com naturalidade o hibridismo do portunhol como espaço de invenção. A língua, aqui, não é mero recurso estilístico. É também um espelho da experiência pessoal de Isadora, que chegou à Argentina sem conhecer o idioma. “Meu contato com o espanhol foi na rua, no susto. Cheguei decidida a morar em Buenos Aires sem conhecer nada nem ninguém, e mergulhei no idioma de maneira profunda”, conta. Seu aprendizado, longe de ser linear, foi feito de sonoridades estranhas, ruídos e encantamentos.
Poesia do deslocamento (e do interior)
No posfácio do livro, a escritora e artista visual Marta Neves oferece uma leitura sensível da obra, enxergando nela mais do que um simples relato de travessia geográfica. “São os detalhes de coisas aparentemente imóveis que nos movem nos poemas”, escreve Marta. Para ela, o trânsito que importa em Dente de leite é menos o da estrangeira e mais aquele que acontece dentro da poeta e do tempo.
Lacunas, perguntas e imagens
A pergunta que abre o livro, “Para que serve o estrangeiro, senão para que haja sempre um buraco no peito, uma palavra intraduzível?”, já anuncia a natureza inacabada da escrita de Isadora. Não se trata de buscar uma síntese entre línguas ou vivências, mas de habitar justamente o que falta, o que escapa.
A capa do livro reforça esse espírito: uma pintura original da artista e educadora Marcela Novaes, inspirada em sua série de casas isoladas vistas no Google Maps. “Havia ali algo do íntimo e do alheio que também atravessava muitos poemas”, observa Isadora.
Uma estreia entre cadernos, ruas e vozes
Com versos que nascem entre cadernos, notas de celular e encontros com amigas escritoras e amigos artistas, Dente de leite não esconde suas origens nem sua vulnerabilidade. É um livro que sabe que não precisa estar pronto para ser inteiro, e que talvez só exista mesmo no entre, no vão, no trânsito entre idiomas, afetos e mundos.
O projeto foi realizado com apoio da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, através de recursos da Lei Paulo Gustavo.


Serviço

Dente de Leite
Isadora Barcelos
Poesia
Crivo Editorial // 77 páginas
R$ 50 reais – Disponível no site da editora: https://loja.crivoeditorial.com.br/dente-de-leite


