Sou fã de cinema japonês desde sempre, e quando foi anunciado que Shinobu Yaguchi adentraria o gênero de terror, confesso que fiquei intrigado com o que ele entregaria. Diretor de clássicos como Waterboys e Swing Girls, Yaguchi é conhecido por seus filmes de cotidiano e comédia leve, então vê-lo em um gênero totalmente novo já chamava atenção.
O mais curioso é que, para ser levado a sério, Yaguchi lançou Dollhouse sob um pseudônimo, ciente de que a reação do público japonês seria a mesma daqueles que conhecem seus trabalhos anteriores. O resultado é surpreendente, pois o diretor consegue abraçar o J-Horror clássico de forma convincente.
Distribuído pela Toho no Japão e pela Sato Company no Brasil, o filme traz nomes de peso como Koji Seto (Kamen Rider Kiva) e Masami Nagasawa, em uma história que segue a fórmula essencial de obras como Ringu e Ju-On.
A história

Tudo começa em um bairro tranquilo, com crianças brincando pelas ruas, até conhecermos Yoshie (Masami Nagasawa), uma mãe desesperada após o desaparecimento da filha. Casada com Tadahiko (Koji Seto), ela descobre que a menina morreu dentro da máquina de lavar roupa, uma cena que já dá o tom trágico da narrativa.
Traumatizada, Yoshie tenta se apegar a algo e encontra, em um antiquário, uma boneca que lembra sua filha falecida, Mei. O marido, tentando manter a estabilidade familiar, aceita a presença do objeto em casa, e por um tempo tudo parece voltar ao normal.
Cinco anos se passam. O casal tem agora uma nova filha, Mai, e a boneca é guardada em um armário. A vida segue, até que a menina encontra o brinquedo e decide torná-lo sua amiga. Aos poucos, eventos estranhos começam a acontecer.
Mai surge com hematomas e marcas de mordidas, alegando que a boneca está com ciúmes dela e que, de alguma forma, “quer o lugar de volta”.
Preocupado, Tadahiko investiga a origem do objeto e descobre que se trata de uma ningyō ikiningyō, boneca realista feita no período Showa com cabelos humanos, uma prática comum na época. A investigação o leva a um passado sombrio: a boneca teria sido criada por um artesão lendário, inspirado em sua própria filha morta.
Tadahiko tenta encerrar o ciclo, levando a boneca a um ritual religioso para queimar objetos amaldiçoados. No entanto, o sacerdote responsável, percebendo o valor histórico do artefato, decide escondê-lo e o caos se intensifica.
É então que surge Kanda (Tetsushi Tanaka), um sacerdote que conhece bem o mito das ningyō ikiningyō. Ele ajuda a família a compreender a origem da maldição, revelando a trágica história por trás da menina que inspirou a criação da boneca. Quanto mais eles descobrem, mais o terror se aprofunda e a solução parece se distanciar.
O terror como forma clássica

Dollhouse apresenta um roteiro de terror tradicional, com estrutura previsível, e é justamente aí que reside sua força. Às vezes, o terror funciona melhor quando abraça seus clichês. Quanto mais o filme tenta explicar o inexplicável, mais ele se firma como um verdadeiro J-Horror raiz, construindo o medo pelo silêncio e pela sugestão.
Yaguchi se sai muito bem em sua estreia no gênero, criando um universo que, mesmo fantasioso, se ancora profundamente na mitologia japonesa, tornando a narrativa crível e envolvente.
Quando o familiar se torna assustador

As ningyō ikiningyō são parte real da cultura japonesa. Quem frequenta eventos das comunidades nikkeis no Brasil provavelmente já viu algumas expostas. Ver esse elemento cultural transformado em algo genuinamente aterrorizante é surpreendente, e confesso que, depois de Dollhouse, nunca mais vou olhar para essas bonecas do mesmo jeito.
O roteiro segue a lógica de obras como Ringu: camadas de mistério, ciclos de maldição e o peso da perda familiar. A semelhança não é coincidência. A boneca amaldiçoada tem o mesmo impacto simbólico que Sadako saindo da televisão, e essa conexão só fortalece a narrativa.
Atuação e impacto

Koji Seto e Masami Nagasawa roubam a cena. Tadahiko é o investigador relutante que busca uma lógica onde só há medo, enquanto Yoshie vive entre o trauma e a loucura, sem saber o que é real. A dinâmica entre eles torna o terror emocional tanto quanto físico.
Para quem já viu o filme, o ponto alto é quando as assombrações se materializam. A boneca se move, exibe dentes pontudos e se torna uma entidade viva, em cenas que equilibram o grotesco e o poético. A sequência tem potencial para se tornar icônica dentro do cinema japonês contemporâneo.
Dollhouse tem tudo para iniciar uma nova saga dentro do J-Horror. Seu final deixa claro que aquela estranha boneca não teve seu último ato, e, sinceramente, torço para que Shinobu Yaguchi continue a explorar esse universo.
No fim, o filme é uma carta de amor ao terror japonês de raiz: o medo que cresce no silêncio, o olhar vazio e o grito que nunca chega.

Nota: 4 (de 5)
Dollhouse
Título em japonês: ドールハウス
Romaji: Dollhouse
Direção: Shinobu Yaguchi
Roteiro: Shinobu Yaguchi
Produção: Tomoo Fukatsu
Direção de fotografia: Futa Takagi
Distribuição: Sato Company
Data de lançamento: 06 de novembro de 2025
Duração: 110 minutos
País: Japão
Idioma: Japonês
Agradecimentos a Sato Company e a Sinny pela produção deste conteúdo


