Dirigido por Richard Linklater, Nouvelle Vague pode até parecer, para um olhar mais leigo, uma comédia romântica. Na prática, o filme revisita um dos momentos mais importantes do cinema francês. Ao acompanhar a criação de Acossado e apresentar Jean-Luc Godard a uma nova geração, Nouvelle Vague mostra o quanto era preciso ser provocativo para que algo fosse, de fato, relevante.
A narrativa nos leva a um recorte de 1959, quando jovens como Godard, Truffaut e Chabrol queriam reinventar o cinema e provar que tudo podia ganhar novos contornos e novas formas. Ainda inexperientes e buscando seu espaço ao sol, eles, então críticos da Cahiers du Cinéma, carregavam ambições claras para o futuro.

É nesse contexto que Guillaume Marbeck dá o tom de um Jean-Luc Godard incompreendido, que finalmente ganha sua chance de dirigir Acossado. Sua equipe não o entende e duvida que, em apenas 20 dias de filmagem, ele consiga entregar um filme — ainda mais com um método de trabalho tão pouco convencional.
Conhecemos a história de Acossado e de Jean-Luc Godard, mas vivenciá-la em Nouvelle Vague é outra experiência. É aqui que embarcamos nessa viagem.
Sem roteiro, sem ensaio e um verdadeiro caos criativo

Quando Godard recebe a oportunidade de fazer seu filme, ele sabe que tem um orçamento enxuto, poucos dias e um elenco visivelmente confuso em mãos.
Tudo começa com Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin), que sai do serviço militar e vê na parceria com Godard uma chance de sucesso. Após atuar em um curta-metragem, ele aceita protagonizar o projeto, mesmo com pessoas próximas considerando mais sensato buscar um diretor ou um filme de maior renome.
O filme, porém, ganha sua verdadeira protagonista com a chegada de Jean Seberg (Zoey Deutch). Em meio à divulgação de um novo trabalho, ela e o marido enxergam em Godard a oportunidade de participar de uma produção prestigiada. Jean aceita o papel sem saber quase nada sobre o diretor e logo se surpreende com a ausência de roteiro e com os métodos nada convencionais de filmagem.
Essa estranheza já se impõe no primeiro dia, quando o elenco grava apenas uma única cena. O que poderia soar como insegurança ou até uma furada revela, na verdade, o processo criativo de Godard, que buscava a espontaneidade do elenco. Ele reescrevia cenas e decidia o rumo dos personagens à medida que as filmagens avançavam, dia após dia.
Nouvelle Vague talvez até suavize certos aspectos dessa trajetória, já que Godard se mostra, muitas vezes, insuportável. Com Jean Seberg frequentemente em busca de um caminho mais claro, Godard insistia para que ela encontrasse sozinha a jornada de sua personagem.
Enquanto os dias passam e a equipe segue cheia de dúvidas, vemos surgir uma amizade entre Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo. Jean-Paul simplesmente deixava as coisas acontecerem, e talvez seja com ele que Jean aprenda não apenas sobre atuação, mas sobre aproveitar ao máximo aqueles dias caóticos.
Opinião

Por ser um filme de viés biográfico, Nouvelle Vague pode afastar parte do público. Ainda assim, é uma grata surpresa pela forma como constrói sua narrativa. Independentemente de conhecer ou não o cinema francês, acompanhar as filmagens de Acossado é uma experiência divertida, sustentada por um elenco afiado e carismático, que faz esquecer que estamos vendo representações de nomes gigantes da história do cinema.
Guillaume Marbeck brilha ao interpretar um Godard irritante, introspectivo e inseguro, mesmo já tratado como um gênio. Ele não “imita” o cineasta, mas constrói um incômodo constante, essencial para o personagem funcionar em cena.
Se há um grande destaque, esse nome é Zoey Deutch. Sua Jean Seberg cria uma ponte direta com o espectador, traduzindo dúvidas que também surgem diante do estilo nada tradicional de Godard. Seus anseios ganham força na atuação de Zoey, que não só se destaca em cena como entrega um momento memorável em um banho em uma fonte francesa.

Aubry Dullin, por sua vez, surpreende como Jean-Paul Belmondo, mostrando um jovem disposto a crescer e se adaptar ao que lhe é pedido. Entre os três protagonistas, Jean-Paul é quem mais parece se divertir em cena, algo que Dullin consegue traduzir com naturalidade.
Já Richard Linklater, conhecido por filmes como Boyhood, imprime seu estilo ao recriar esse momento histórico. Em preto e branco, com um cuidadoso resgate do espírito de 1959, Nouvelle Vague funciona tão bem que faz esquecer até mesmo o formato Academy (1.37:1), totalmente integrado à narrativa.
Nouvelle Vague apresenta uma história fundamental do cinema francês sem abrir mão do humor e da leveza, mostrando que os desafios daquele período não apenas moldaram o cinema moderno, como seguem relevantes até hoje.

Nota: 4,5 (de 5)
NOUVELLE VAGUE
França – EUA | 2025 | 106 min. | Biografia – Comédia – Drama
Título Original: Nouvelle Vague
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Holly Gent, Laetitia Masson, Vincent Palmo Jr.
Elenco: Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin, Adrien Rouyard, Antoine Besson, Jodie Ruth-Forest, Bruno Dreyfürst, Benjamin Clery
Distribuição: Mares Filmes | Alpha Filmes
Agradecimentos a Mares Filmes e a Alpha Filmes pelo convite para produção deste conteúdo.


