InícioEventosCCXP25, o maior evento geek do Brasil já não cabe só no...

CCXP25, o maior evento geek do Brasil já não cabe só no rótulo “geek” | Cobertura Geral

A CCXP25 terminou sua 12ª edição deixando uma constatação difícil de ignorar: o festival atravessa um processo claro de transformação. Ao longo de cinco dias, entre 3 e 7 de dezembro, 284 mil pessoas circularam pelo São Paulo Expo em mais de 300 horas de programação distribuídas em sete palcos. Mas o dado mais relevante não está nos números. Está na mudança de lógica.

A CCXP se reinventou e não pode mais ser definida como uma grande vitrine de anúncios para o público geek tradicional. Em 2025, o evento se afirma como um ecossistema de cultura pop, onde cinema, streaming, anime, quadrinhos, literatura, música, televisão, esporte e mercado editorial coexistem, disputam atenção e, muitas vezes, se misturam.

Esse movimento amplia o público, traz novas vozes e reposiciona o papel do evento no calendário cultural brasileiro. Ao mesmo tempo, provoca tensões legítimas sobre identidade, foco e pertencimento. A CCXP25 não resolve essas questões, mas deixa claro que não pretende voltar atrás e continua se reinventando num claro processo de transição junto de seu público.

Palco Thunder

CCXP25 Palco Thunder_Disney+ @bleia

O Palco Thunder by Claro tv+ segue sendo o coração simbólico da CCXP, mas em 2025 ele funcionou menos como um painel de trailers e mais como um espaço de experiência coletiva. A celebração dos 20 anos de Supernatural foi o exemplo mais evidente. A série atravessou o evento inteiro, com painéis, encontros, karaokês e experiências que venderam cerca de 9 mil sessões entre fotos, autógrafos e atividades especiais.

Não foi apenas nostalgia. Foi a prova de que fandom é vínculo emocional construído ao longo do tempo, algo que a CCXP entende melhor a cada edição.

No mesmo palco, o Prime Video levou The Boys para um dos painéis mais concorridos do evento. Eric Kripke e o elenco apresentaram o teaser da quinta e última temporada, confirmaram a estreia em abril e deixaram claro que a série segue sendo um dos principais comentários políticos da cultura pop recente. O público respondeu com entusiasmo, reforçando como narrativas mais ácidas e desconfortáveis também encontram espaço no festival.

A Disney+ apostou em espetáculo. Performances musicais, cenografia elaborada e conteúdos inéditos marcaram a passagem da plataforma pelo Thunder. Entre Demolidor, Magnum, Paradise, Percy Jackson e os Olimpianos e a nova fase de The Voice Brasil, o painel deixou claro que o streaming quer se posicionar não apenas como catálogo, mas como produtor de momentos memoráveis. Quando o público inteiro cantou “Evidências”, ficou evidente que a CCXP também é espaço de catarse espontânea.

A comemoração dos 10 anos de Miraculous fechou esse arco com emoção. Criadores, dubladores brasileiros, anúncios futuros e trechos inéditos transformaram o painel em um encontro intergeracional, reforçando o peso da animação dentro da cultura pop contemporânea.

Cinema nacional no centro do palco, não na lateral

Crédito: Lucas Ramos

Um dos movimentos mais consistentes da CCXP25 foi a centralidade do cinema brasileiro. A Paris Filmes levou ao Thunder um dos painéis mais simbólicos do evento com Velhos Bandidos. Fernanda Montenegro, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Claudio Torres apresentaram o trailer em primeira mão e trataram o projeto com franqueza, falando de processo, afeto e encontro entre gerações.

O filme, que estreia em março de 2026, dialoga com o imaginário dos heist movies, mas com identidade brasileira. A recepção do público deixou claro que o cinema nacional já não ocupa um espaço “alternativo” dentro da CCXP, mas um eixo central da programação.

Essa mesma lógica apareceu em O Gênio do Crime, adaptação do clássico de João Carlos Marinho, que ativou memória afetiva e apresentou novos rostos para uma história que atravessa gerações de leitores. Já o anúncio de 2DIE4: 24 Horas no Limite, primeiro longa brasileiro a chegar aos cinemas em IMAX, mostrou que a CCXP também é espaço para ambição técnica e discussão de linguagem cinematográfica.

Streaming nacional, séries autorais e novas vozes

CCXP25_04-12-25_Palco_Thunder_Disney_@alnereis

Séries brasileiras também ganharam protagonismo. Amor da Minha Vida lotou o Thunder com Bruna Marquezine e Rômulo Estrela discutindo conflitos emocionais, amadurecimento narrativo e decisões criativas. A exibição de cenas inéditas reforçou o valor do evento como espaço de recompensa para o fã presente.

No Palco Blast, Lázaro Ramos anunciou a nova temporada de Espelho, transformando o painel em uma conversa sobre diversidade, encontros geracionais e cultura brasileira. A CCXP25 mostrou que também há espaço para reflexão e diálogo, mesmo em meio ao espetáculo.

Anime, dublagem e o Brasil como território estratégico

Palco-de-vozes-brasileiras_Fabio-Piva_-Crunchyroll-1

A Crunchyroll consolidou sua posição como uma das presenças mais orgânicas do evento. A Casa do Anime funcionou como microevento permanente, com ativações, sessões antecipadas e experiências de dublagem.

O painel que reuniu 14 dubladores brasileiros no Thunder foi simbólico. Ao colocar essas vozes no centro, a Crunchyroll reconhece algo essencial: no Brasil, anime é experiência coletiva, mediada por quem dá voz aos personagens e constrói memória afetiva.

Literatura, mangá e o leitor no centro do debate

O mercado editorial teve presença forte e consistente. A Pipoca & Nanquim apresentou um dos painéis mais sólidos do evento, com anúncios que vão de mangás clássicos como City Hunter e Cat’s Eye a quadrinhos europeus e edições definitivas.

No Palco Omni, debates com editoras mostraram como fandoms, narrativas seriadas e a influência do streaming estão redesenhando o comportamento do leitor. A CCXP se confirma aqui como termômetro do mercado, não apenas como vitrine.

Marcas que entendem que presença é experiência

A CCXP25 também evidenciou o amadurecimento das marcas. A COPAG transformou seu estande em ponto de encontro constante, com dubladores, creators e mesas sempre cheias de Disney Lorcana. O foco deixou de ser apenas produto e passou a ser comunidade.

Esse aprendizado atravessou todo o evento. As marcas que entenderam o território geek como espaço de convivência, e não só de exposição, foram as que mais permaneceram na memória do público.

Um evento em transição permanente

Giuliano Peccilli

A CCXP25 pode ser definida, como um evento que já não se limita mais à cultura geek em seu sentido tradicional. Ao longo dos últimos anos, o festival passou a atingir novos públicos e a dialogar com diferentes linguagens culturais, ampliando seu alcance e sua relevância. Se em 2024 a CCXP se consolidou como um grande hub da cultura geek, em 2025 esse movimento se expandiu ainda mais, incorporando outros produtos, experiências e expressões culturais, sempre traduzidos dentro de um mesmo contexto. É um caminho que chama atenção e que parece irreversível.

Com uma programação repleta de ativações e atividades diversas, parte do público pode até sentir falta de um foco mais fechado no chamado “geek clássico”. Ainda assim, esse desconforto faz parte do próprio processo de evolução do evento. Para alcançar novas pessoas e dialogar com outros universos, é necessário se reinventar. A presença de RuPaul’s Drag Race na CCXP, com atrações no palco e gongadas típicas de eventos LGBTQIA+, é um exemplo claro desse novo enfoque, evidenciando não apenas a ampliação do público, mas também a disposição do festival em acompanhar transformações culturais mais amplas.

Hoje, ser geek se tornou algo mais genérico enquanto rótulo cultural, justamente por sua capacidade de absorver diferentes linguagens, públicos e formatos. Essa ampliação influencia diretamente o DNA do evento. A CCXP, na prática, nunca coube em um único rótulo, e isso se torna cada vez mais evidente. O geek não desapareceu. Ele mudou, amadureceu, dialogou com outras culturas e se misturou a elas.

A CCXP25 parece ter assumido esse movimento com clareza. Longe de representar um risco, essa escolha transforma o festival em um espaço que dialoga não apenas com o mercado, mas também com o fandom e com a cultura geek em suas múltiplas camadas. Entre painéis de distribuidoras de cinema, editoras e serviços de streaming, a CCXP segue sendo menos sobre o que é anunciado e mais sobre o que é vivido ao longo de seus cinco dias.

Em 2025, viver a CCXP significou atravessar um território já conhecido, que resgata memória afetiva, mas que também coloca indústria, arte e experiência em contato constante. Nem sempre de forma totalmente harmoniosa, mas quase sempre de maneira significativa e relevante, reafirmando o papel do evento como um espaço de encontro, transformação e de se viver o épico.

Agradecemos a organização da CCXP25 em poder fazer a cobertura do evento por lá.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

Leia também

A CCXP25 terminou sua 12ª edição deixando uma constatação difícil de ignorar: o festival atravessa um processo claro de transformação. Ao longo de cinco dias, entre 3 e 7 de dezembro, 284 mil pessoas circularam pelo São Paulo Expo em mais de 300 horas...CCXP25, o maior evento geek do Brasil já não cabe só no rótulo “geek” | Cobertura Geral