O cinema brasileiro volta os olhos para São Luís com o início das filmagens de Nau de Urano, longa que coloca Matheus Nachtergaele no papel do poeta Nauro Machado. A produção já começou e segue até 25 de abril, ocupando uma casa no centro histórico da cidade, cenário que conversa direto com o isolamento e o universo do personagem.
Dirigido por Frederico Machado e Helena Machado, o filme não tenta ser uma cinebiografia convencional. A proposta é outra: misturar lembrança, imaginação e obsessão para entrar na cabeça de um artista que nunca foi exatamente fácil de decifrar.
Entre o porão e a poesia
A história acompanha Nauro desde a infância, marcada pela morte do pai, até sua vida adulta, sempre atravessada por isolamento, álcool e escrita. O ponto central não é recontar fatos, mas entender como vida e obra se confundem.
O filme parte dessa ideia quase simbiótica. O poeta não escreve sobre a vida, ele escreve dentro dela. E isso se reflete na forma como a narrativa é construída, mais próxima de um fluxo de pensamentos do que de uma linha cronológica tradicional.
Um filme que flerta com teatro e artes visuais
As referências ajudam a entender o tom. A dupla de diretores bebe de nomes como David Lynch, Alejandro Jodorowsky e Andrei Tarkovsky. Ou seja, não espere um filme “explicadinho”.
A ideia é transitar entre cinema, teatro e artes plásticas. Isso aparece tanto na encenação quanto na construção dos personagens, que orbitam o protagonista como extensões de seus conflitos.
No elenco, além de Nachtergaele, estão Buda Lira e Nanego Lira como os irmãos do poeta, Dani Barros como Arlete e Bete Mendes, que retorna ao cinema após mais de uma década.
Projeto pessoal vira cinema
Existe um peso extra aqui. Frederico Machado é filho de Nauro. Isso muda a equação.
O filme deixa de ser apenas uma adaptação e passa a ser também um reencontro, ainda que atravessado por memória, interpretação e liberdade criativa. Helena Machado entra como contraponto, trazendo uma estrutura narrativa mais voltada ao drama e à construção de personagens.
Produzido por Lume Filmes em parceria com outras produtoras independentes, Nau de Urano segue a linha do cinema autoral brasileiro que prefere arriscar linguagem a buscar conforto narrativo.
No fim, não parece ser um filme para explicar quem foi Nauro Machado. É mais sobre sentir o que ele foi. E isso, para o bem ou para o caos, costuma render experiências mais interessantes do que qualquer biografia certinha.


