Baseado no espanhol Sentimental, de Cesc Gay, O Convite coloca Olivia Wilde à frente de um grande elenco para entregar um remake que facilmente entra na lista dos melhores filmes de 2026.
E sejamos francos que O Convite deixa claro desde o primeiro minuto que estamos acompanhando a vida de um casal que já passou dos seus melhores dias de relacionamento. Conhecemos Joe (Seth Rogen), um professor de música, enquanto Angela (Olivia Wilde) é uma dona de casa que tenta manter as aparências de uma vida perfeita.
Ao chegar em casa depois de um dia de trabalho, Joe descobre que Angela marcou um jantar com os vizinhos do andar de cima. É aí que descobrimos um dos principais motivos do desgaste entre os dois: os constantes gemidos e barulhos vindos do apartamento acima.
A situação fica ainda mais curiosa quando a campainha toca e surgem Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton). Logo de cara, os dois percebem a tensão entre o casal, mas entram no jogo enquanto conhecem o apartamento recém-reformado dos anfitriões.
Angela faz de tudo para agradar Pina, preparando uma mesa de queijos e frios, apenas para descobrir que a convidada é alérgica a praticamente tudo aquilo.
Com um tom que lembra os filmes clássicos de Woody Allen, Olivia Wilde conduz a trama em camadas. A conversa começa cheia de constrangimentos e pequenas provocações, mas, conforme o álcool entra em cena, as barreiras desaparecem e as verdades começam a surgir.
E se o álcool está presente, a sinceridade também. A vida sexual de Pina e Hawk rapidamente vira assunto, impulsionada justamente pelos barulhos que incomodam os vizinhos. É então que o casal revela participar de festas de sexo e encontros com outros parceiros, algo tratado por eles com absoluta naturalidade.
Joe e Angela ficam visivelmente desconcertados com tanta honestidade, mas a presença dos vizinhos acaba despertando uma pergunta inevitável: será que aquela noite pode reacender um relacionamento que parecia já desgastado?
Opinião

Eu ainda conhecia pouco o trabalho de Cesc Gay antes de assistir Histórias para Não Contar (2022), mas mesmo sendo um remake americano, O Convite preserva uma das principais características do diretor: transformar situações cotidianas em conversas desconfortáveis que falam sobre sexo, desejo e relacionamentos com uma naturalidade incomum.
Olivia Wilde, por sua vez, imprime sua própria identidade à obra original. O resultado é um filme que lembra o cinema de Woody Allen não apenas pelo humor, mas pela maneira como coloca quatro personagens em um mesmo ambiente para desmontar, pouco a pouco, suas certezas e contradições através dos diálogos.
A grande sacada é que praticamente toda a história acontece dentro do apartamento de Joe e Angela, preservando a essência da peça que deu origem ao filme. Essa escolha deixa nas mãos de Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz e Edward Norton a responsabilidade de sustentar a narrativa — e eles fazem isso com enorme competência.
Seth Rogen entrega um Joe cansado da própria vida. Ele já não encontra felicidade nem no casamento, nem na carreira como músico, enquanto tenta mudar de hábitos sem muita convicção, representada até pela bicicleta ergométrica dobrável que vive ocupando espaço na sala.
Olivia Wilde interpreta uma mulher que já não consegue enxergar o marido da mesma forma, mas insiste em manter a aparência de uma família feliz por causa da filha. O curioso é que Angela parece se sentir mais desejada ao perceber o interesse dos vizinhos do que dentro da própria casa.
Penélope Cruz brilha como Pina, uma psicóloga e sexóloga que alterna inglês e espanhol enquanto desmonta, com enorme naturalidade, a dinâmica do casal vizinho. Mais do que defender relacionamentos abertos, sua personagem questiona por que tantos casais permanecem presos à rotina sem sequer conversar sobre seus desejos.
Edward Norton completa o quarteto como Hawk, um bombeiro que reencontrou a felicidade ao lado de Pina e encara a própria relação com uma leveza que contrasta diretamente com a tensão vivida por Joe e Angela.
Enquanto O Convite faz rir desde o primeiro minuto com as constantes brigas do casal protagonista, o que realmente chama atenção é a forma como o roteiro vai revelando, pouco a pouco, os problemas e segredos de pessoas que passaram a viver no piloto automático. No fim das contas, Pina e Hawk funcionam menos como agentes do caos e mais como um espelho que obriga Joe e Angela a encararem aquilo que vinham evitando há muito tempo.
Com humor na medida certa e constrangimentos que fazem parte da proposta, O Convite não reinventa a comédia dramática, mas entrega um filme inteligente, divertido e surpreendentemente humano. É um remake que entende o espírito da obra original sem abrir mão de uma identidade própria, provando que Hollywood ainda é capaz de adaptar histórias estrangeiras sem perder aquilo que as tornou especiais.
Ficha técnica

- Nota: 4,5 (de 5)
- O Convite
- Direção: Olivia Wilde
- Roteiro: Will McCormack e Rashida Jones
- Baseado em: As Pessoas do Andar de Cima (The People Upstairs), de Cesc Gay
- Elenco: Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz e Edward Norton
- Produção: Ben Browning, Megan Ellison e David Permut
- Fotografia: Adam Newport-Berra
- Montagem: Yorgos Mavropsaridis e Anthony Boys
- Trilha sonora: Devonté Hynes
- Distribuição: O2 Play
- País: Estados Unidos
- Duração: 107 minutos
- Estreia: 25 de junho

