São Paulo recebeu, entre os dias 7 e 9 de agosto, mais uma edição do Kenko Festival. Realizado na Universidade São Judas, na unidade Mooca, o evento chegou à sua quinta edição mantendo uma proposta que foge um pouco do formato tradicional das grandes convenções geek. Em vez de concentrar toda a atenção em um único palco, o festival espalhou atividades pelo espaço e criou diferentes possibilidades para o visitante passar o dia.
A programação reuniu games, anime, cosplay, dublagem, música, tokusatsu, karaokê e atrações interativas. O resultado foi um evento com públicos diferentes compartilhando o mesmo espaço, desde quem foi atrás de videogames antigos até quem estava interessado nos convidados e painéis.
Com a sexta-feira, dia 7 de agosto, tendo acesso gratuito, o Kenko se diferencia de outros eventos da cidade também pela proposta. O festival trouxe gincanas que remetem aos antigos programas de televisão, um público bastante diverso de cosplayers, famílias e um público jovem em busca de uma alternativa aos formatos mais tradicionais.
O resultado é um evento grandioso em tamanho, mas que recupera um pouco do espírito das convenções de antigamente, com salas temáticas, atrações espalhadas e atividades que convidam o visitante a explorar o espaço. Uma característica que não apenas ajuda a diferenciar o Kenko, mas também explica parte do interesse que o festival vem despertando desde sua criação.
Os três Homens-Aranha no mesmo palco
A principal atração aconteceu no sábado, quando o Palco Principal recebeu Manolo Rey, Sérgio Cantú e Wirley Contaifer, vozes brasileiras associadas às versões do Homem-Aranha interpretadas por Tobey Maguire, Andrew Garfield e Tom Holland.
Colocar os três profissionais juntos já era, por si só, uma iniciativa ambiciosa. O painel também representa algo interessante para a cultura pop brasileira: a possibilidade de reunir diferentes gerações de fãs de Homem-Aranha a partir de uma característica que atravessa os filmes e, sim, estamos falando da dublagem.
O encontro trouxe histórias de bastidores, curiosidades sobre o trabalho e, principalmente, a oportunidade de ver os três profissionais dividindo o mesmo palco.
Os três também participaram da dublagem de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, que reuniu as três versões do personagem no cinema. O encontro no Kenko, portanto, funciona quase como uma extensão daquela ideia, desta vez colocando os próprios profissionais frente a frente com o público.
E fica aquela pergunta inevitável: será que veremos novamente os três juntos em algum outro projeto?
Para quem cresceu acompanhando diferentes versões do personagem, foi um daqueles momentos que naturalmente se transformam em uma das lembranças da edição.
Games para várias gerações

Se o visitante procurava videogame, também havia bastante coisa para fazer.
A Arena Retrogame apostou diretamente na nostalgia, com arcades, consoles clássicos e partidas de jogos que marcaram diferentes períodos da indústria.
O espaço organizado pelo Canal 3 complementou essa proposta com free play e raridades de videogames antigos. É uma combinação que funciona especialmente bem em eventos desse tipo porque não depende apenas da contemplação: o público pode olhar, reconhecer um console e, principalmente, colocar a mão no controle.
E há um pequeno “spoiler” para quem ainda não conhece o trabalho do Canal 3: o grupo também realiza seu próprio evento. Para quem passou pela área do Kenko, foi uma boa oportunidade de conhecer um pouco mais do que eles fazem e, quem sabe, descobrir uma próxima programação para colocar na agenda.
A programação competitiva também percorreu diferentes gerações.
Na sexta-feira, os campeonatos passaram por Mortal Kombat 1 e Demon Slayer. No sábado, foi a vez de The King of Fighters 2002, Street Fighter Alpha 2 e Mario Kart. Já no domingo, o público teve disputas de Street Fighter 6 e 2XKO.
A seleção mostra uma preocupação em não tratar o público gamer como um grupo homogêneo. Há espaço tanto para quem acompanha os jogos atuais quanto para quem prefere revisitar os clássicos.
Entre o anime, o tokusatsu e a nostalgia

A programação também encontrou espaço para um público que cresceu acompanhando produções japonesas.
Um dos destaques foi Adriel Jaspion, ator e dublê que participou das apresentações de Jaspion no Circo Show Tokyo Space durante os anos 1980.
Sua participação ganhou um componente ainda mais nostálgico com um show musical dedicado ao personagem. O festival também montou uma Sala Temática Metaltex, com produtos inspirados no herói.
No domingo, a música voltou ao palco com a apresentação da Sons of Sokeking, levando repertório de anime para o encerramento da programação.
Dublagem como atração

A dublagem, aliás, foi um dos elementos que mais chamaram a atenção na programação do Kenko.
Além do painel dos três Homens-Aranha, o evento recebeu na sexta-feira Gabriel Verta, dublador de Rudo, protagonista de Gachiakuta. Já no domingo, foi a vez de Felipe Grinnan, conhecido pelo público dos games como a voz brasileira de Leon S. Kennedy, personagem de Resident Evil.
A presença de profissionais de dublagem em eventos geek deixou de ser apenas uma atração complementar. Para parte do público, conhecer quem está por trás das vozes de personagens conhecidos é tão interessante quanto encontrar atores, músicos ou criadores.
O Kenko aproveitou bem esse interesse ao colocar diferentes nomes da área em sua programação.
Nem tudo precisa acontecer no palco

Um dos pontos mais interessantes da proposta do festival está justamente nas atrações espalhadas pelo espaço.
A Vila Kawaishu levou artistas independentes para dentro do evento, com ilustrações, acessórios, pelúcias, chaveiros, impressões, artesanato e outros produtos autorais.
É um tipo de área que ajuda a diferenciar uma convenção baseada apenas em grandes marcas de um evento que também dá espaço para quem produz dentro da própria comunidade.
Para o visitante, isso significa encontrar produtos que dificilmente aparecem nas lojas convencionais. Para os artistas, é uma oportunidade de apresentar diretamente seu trabalho a um público interessado em cultura geek.
Também havia espaço para quem queria simplesmente se divertir.
O festival contou com Karaokê Box, área de Just Dance, atividades interativas e outros espaços destinados à participação do público.
E ainda tinha a Sala do Terror

Entre tantas referências a anime, games e cultura pop, a Sala do Terror trouxe uma proposta diferente, inspirada naquele modelo de atrações que aparece em eventos escolares no Japão, nos quais estudantes transformam salas e espaços em experiências de terror.
A atração apostou no horror cósmico, colocando o visitante diante de uma experiência baseada em escuridão, tensão e exploração.
A proposta não apenas atraiu o público, com grandes filas ao longo do evento, como também fez com que o próprio Labirinto “invadisse” o festival. Em alguns momentos, personagens da atração circulavam pelo Kenko e surpreendiam quem passava pelo local, provocando alguns bons sustos.
É uma daquelas ideias simples que ajudam a fazer o visitante lembrar que está em um evento diferente.
Um evento para passar o dia

Outro elemento importante é a estrutura pensada para manter o público no espaço durante várias horas.
A praça de alimentação ofereceu diferentes opções de comidas, abraçando culinárias japonesa e coreana, além do tradicional fast food com lanches. Enquanto isso, a programação se dividia entre palcos e áreas de atividades.
Isso parece um detalhe, mas faz diferença em eventos desse porte. Quando a programação é espalhada, o visitante precisa ter espaços para fazer uma pausa, comer, conversar e depois voltar para as atrações.
O próprio formato da Universidade São Judas contribuiu para essa dinâmica, permitindo que o festival ocupasse diferentes ambientes.
Kenko aposta na experiência coletiva

Na prática, a quinta edição do Kenko Festival mostra um evento que ainda está construindo sua identidade, mas que já caiu no gosto de parte do público paulistano.
O festival consegue conversar tanto com o modelo dos grandes eventos atuais quanto com uma ideia mais antiga de convenção, em que o visitante encontrava salas temáticas, atrações menores e atividades que faziam parte da própria experiência de circular pelo evento.
Aqui, o público tem espaço para tudo. Os gamers jogam e participam de campeonatos, enquanto a Vila Kawaishu aproxima artistas e visitantes. Os painéis colocam os convidados frente a frente com os fãs. O karaokê e o Just Dance transformam o público em parte da atração.
E foi justamente essa combinação que definiu a edição de 2026.
Mais do que apresentar grandes nomes, o Kenko oferece diferentes motivos para permanecer no evento. É possível começar o dia jogando um clássico, passar por uma área de artistas, assistir a um painel, participar de uma atividade e terminar a programação com um show.
Essa variedade provavelmente foi determinante não apenas para conquistar quem conheceu o festival nesta edição, mas também para transformar o Kenko em uma nova opção no calendário de eventos de São Paulo.
Em um mercado geek cada vez mais ocupado por grandes convenções, o Kenko encontra seu espaço ao apostar em diversidade de atrações e participação do público. Há uma sensação de que o festival não tenta simplesmente reproduzir modelos maiores, mas encontrar seu próprio jeito de fazer um evento.
E isso passa por uma característica importante: sinceridade na proposta. O Kenko não precisa depender exclusivamente de um grande nome para justificar a visita. Existe uma programação paralela capaz de sustentar a experiência.
Além disso, sendo um dos primeiros grandes eventos de cultura pop após as férias escolares, o festival mostra que o calendário paulistano não precisa ficar concentrado apenas nas tradicionais datas de julho e dezembro.
Para uma quinta edição, é um caminho interessante de consolidação. O Kenko ainda tem espaço para crescer, mas já demonstra uma identidade própria e, principalmente, mostra que existe espaço em São Paulo para eventos que entendem a cultura geek como algo maior do que uma coleção de franquias famosas.

