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Crítica | Com tons de Primeiro Amor, Quinze Dias é uma “Sessão da Tarde” LGBTQIA+

Bullying, aceitação e descoberta do primeiro amor movimentam a comédia romântica adolescente

Leve, divertido e sincero, Quinze Dias, dirigido por Daniel Lieff, é baseado no livro de Vitor Martins e traz uma história que parte de situações simples para falar sobre temas importantes da adolescência. Com nomes como Débora Falabella no elenco, o filme chegou aos cinemas este ano com uma divulgação intensa, mas acabou não alcançando todas as salas do país.

Se você é fã de Hoje Quero Voltar Sozinho e até mesmo do recente O Melhor Amigo, Quinze Dias é uma boa opção para quem procura uma comédia romântica adolescente que não deixa de lado problemas como gordofobia, aceitação na adolescência e a relação entre pais e filhos quando o assunto é LGBTQIA+.

Com tantos dilemas, Quinze Dias parte de uma trama simples e certeira. Felipe (Miguel Lallo) é um jovem tímido que, quando criança, gostava de ir à piscina do prédio, mas acabou sendo zoado por estar acima do peso. Aos poucos, trocou as diversões ao ar livre por filmes, séries e mangás. Adolescente e abertamente gay, ele não tem muitos amigos e encontra na mãe, Rita (Débora Falabella), seu principal apoio.

Tudo muda quando Caio (Diego Lira) vai passar alguns dias na casa de Felipe porque seus pais viajaram durante as férias. Depois de ser pego pelos pais fazendo uma festa em casa, eles decidem que Caio não pode mais ficar sozinho. O que para ele parece uma solução simples acaba virando um pesadelo para Felipe, que descobre que terá de conviver por 15 dias com seu antigo amigo de infância.

É aí que entra uma das questões mais interessantes do filme. Felipe vê Caio como tudo aquilo que gostaria de ser, magro, popular e aparentemente confortável consigo mesmo. Por isso, não apenas não quer se aproximar dele, como fica furioso com a mãe por ter aceitado receber o antigo amigo em casa.

Só que Felipe não percebe que também deixou de viver por causa do preconceito. Ao olhar para Caio, ele enxerga alguém que teve oportunidades que ele próprio abriu mão de experimentar por medo de ser julgado pelo seu peso.

Conforme os dias passam, Caio tenta se aproximar de Felipe e apresenta suas melhores amigas, que são lésbicas. Aos poucos, isso faz com que Felipe fique menos desconfiado e comece a se permitir viver um pouco mais fora do apartamento.

É justamente nessa simplicidade que o filme encontra seus melhores momentos. Felipe vai a uma festa, chega bêbado em casa e começa a experimentar situações que antes pareciam distantes de sua realidade. Ao mesmo tempo, as amigas de Caio revelam que ele também é gay, para surpresa de Felipe, que não consegue aceitar que alguém com o mesmo padrão que ele considera ideal possa compartilhar da mesma orientação sexual.

Enquanto Felipe precisa aprender a lidar melhor com o próprio corpo, também conhecemos o lado de Caio. Ele tem uma mãe homofóbica e, por isso, não se sente à vontade para assumir sua orientação sexual dentro de casa. É justamente ao observar a relação entre Felipe e Rita que ele percebe o quanto uma relação familiar baseada em aceitação pode fazer diferença.

Rita é uma figura importante para a felicidade do filho. Assistir a musicais todas as quartas-feiras, por exemplo, é algo completamente normal na relação dos dois. A mãe não transforma a sexualidade de Felipe em um problema e simplesmente está presente na vida dele.

Enquanto os dias passam e as amigas de Caio começam a “shippar” os dois, fica a pergunta. Será que Felipe e Caio realmente gostam um do outro?

Veredito

Quinze Dias, por mais leve que seja, não deixa de lado os problemas corriqueiros da adolescência, principalmente quando falamos sobre aceitação dentro da comunidade LGBTQIA+. Felipe se aceita como gay, mas ainda não consegue aceitar o próprio corpo por causa do preconceito que sofreu. Caio é praticamente o oposto. Parece mais confortável consigo mesmo, mas esconde sua orientação sexual dos pais por causa de uma mãe controladora e preconceituosa.

É nesse contraste que Miguel Lallo e Diego Lira carregam o filme. Os dois entregam personagens com personalidades bastante diferentes, mas que acabam se completando conforme a história avança. São duas facetas da adolescência que se encontram até chegar à descoberta do primeiro amor.

As referências geek, como O Senhor dos Anéis, ajudam a construir essa identificação, mas é nos conflitos mais simples que Quinze Dias funciona melhor. Aquele momento em que duas pessoas claramente gostam uma da outra, mas nenhuma delas consegue admitir o que está sentindo, é familiar para qualquer pessoa que já passou pela adolescência.

Como uma comédia romântica digna de Sessão da Tarde, a delicadeza com que o filme aborda o primeiro amor queer é um de seus grandes acertos. O roteiro não precisa transformar tudo em um grande discurso para falar sobre preconceito, corpo, família e aceitação.

Quinze Dias é honesto em sua história e, acima de tudo, representativo. Em um momento em que ainda sentimos falta de mais personagens LGBTQIA+ brasileiros que possam simplesmente existir dentro de histórias leves e populares, o filme encontra seu espaço justamente por não ter medo de ser simples.

Leve, divertido e sincero, Quinze Dias é quase uma Sessão da Tarde LGBTQIA+. Uma história sobre primeiro amor que consegue falar de assuntos importantes sem perder a ternura.

Ficha técnica

Nota: 5 (de 5)

Título: Quinze Dias
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 100 minutos
Gênero: Drama, Romance
Direção: Daniel Lieff
Roteiro: Ray Tavares e Vitor Brandt
Baseado em: Quinze Dias, de Vitor Martins
Elenco: Miguel Lallo, Diego Lira e Débora Falabella
Produção: Conspiração Filmes
Distribuição: Manequim Filmes
Lançamento: 18 de junho de 2026

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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