O cinema brasileiro terá um marco em sua produção de animação com a estreia de Ana, en passant, longa-metragem dirigido pela cineasta mineira Fernanda Salgado, que chega às salas nacionais em 5 de novembro de 2026, com distribuição da Embaúba Filmes. Apresentado pela distribuidora como o primeiro longa de animação dirigido por uma mulher negra a receber lançamento comercial nos cinemas brasileiros, o filme aborda temas como memória, ancestralidade, identidade e pertencimento por meio da trajetória de uma jovem franco-brasileira que viaja ao Brasil após a morte da avó. O anúncio ganha destaque no Dia Internacional da Animação, celebrado em 28 de outubro, data dedicada ao reconhecimento dessa linguagem cinematográfica e de sua diversidade artística.
A produção acompanha Ana, uma jovem negra que nasceu e cresceu em Paris, onde viveu com sua avó brasileira. Após a morte da familiar, ela recebe uma caixa contendo uma carta, objetos pessoais, duas chaves e um endereço em Belo Horizonte. As pistas despertam sua curiosidade sobre uma parte desconhecida da história da família e a levam a viajar para Minas Gerais, onde encontra Alice, moradora do antigo apartamento da avó. A partir desse encontro, as duas mulheres percorrem espaços e lembranças que revelam conexões entre suas trajetórias, transformando a busca por respostas em uma reflexão sobre os vínculos que atravessam gerações.
A narrativa utiliza Belo Horizonte como parte fundamental da experiência da protagonista, associando os deslocamentos pela cidade à descoberta de memórias familiares e afetivas. Ao investigar o passado da avó, Ana também precisa lidar com o luto e compreender como suas origens influenciam a construção de sua identidade. O filme aproxima experiências individuais de questões coletivas relacionadas à ancestralidade negra, às relações entre diferentes gerações de mulheres e ao sentimento de pertencimento, especialmente para pessoas cujas histórias familiares atravessam países e culturas.
Fernanda Salgado combina diferentes técnicas de animação
Um dos aspectos centrais de Ana, en passant é sua construção visual, que combina técnicas de animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion, além de experimentações com animação termossensível. Em vez de adotar uma única linguagem gráfica, Fernanda Salgado utiliza diferentes recursos para representar as experiências e os estados emocionais da protagonista, estabelecendo relações entre imagem, memória e percepção. A direção de animação é assinada por Camila Kater, enquanto a direção de arte fica a cargo de Marcella Tamayo e a fotografia é de Safira Moreira.
A escolha por uma abordagem visual híbrida dialoga com a trajetória da diretora, que desenvolve trabalhos ligados à experimentação audiovisual desde 2005. Natural de Belo Horizonte, Fernanda é roteirista, produtora e pesquisadora, além de cofundadora do Apiário Estúdio Criativo, criado em 2011. A cineasta também participou do programa Berlinale Talents e desenvolve pesquisas acadêmicas na área de cinema de animação em Montréal, no Canadá. Em Ana, en passant, ela assina a direção, o argumento e o roteiro, reunindo diferentes experiências de sua carreira em seu primeiro longa-metragem de animação.
O elenco conta com Jéssica Pierina, Zezé Motta, Carlos Francisco, FLIP, Odilon Esteves e Felipe Oládélè. A trilha sonora original é assinada pelo grupo Metá Metá, conhecido por trabalhos que exploram diferentes influências da música brasileira. A participação do trio contribui para a identidade sonora de uma produção que utiliza a relação entre imagens, sons e espaços urbanos para desenvolver sua narrativa. A montagem é de Paula Santos, com desenho de som de Vitor Coroa.
Filme conquistou prêmios no Brasil e no exterior
Antes de chegar ao circuito comercial, Ana, en passant construiu uma trajetória em festivais nacionais e internacionais. O longa foi premiado no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e recebeu o Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor Filme Longa-Metragem, concedido pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e pelo Centro Afrocarioca de Cinema. O reconhecimento destaca uma produção que coloca personagens negros no centro da narrativa e amplia a presença de realizadoras negras no cinema de animação.
A circulação internacional também incluiu o Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF), no Canadá, onde o filme conquistou o prêmio do júri popular de melhor filme na mostra Vanguard. A premiação, definida pelo voto do público, representa outro reconhecimento para a obra antes de seu lançamento brasileiro. O longa também integrou a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ampliando seu contato com espectadores e profissionais do setor audiovisual.
Realizado em coprodução entre Brasil, Portugal e França, o filme reúne o estúdio brasileiro Apiário, a produtora portuguesa Sardinha em Lata e a francesa Midralgar, além da participação das produtoras associadas Carapiá Filmes e Filmes de Vagabundo. A parceria internacional permitiu reunir diferentes experiências na produção de animação, um segmento que exige processos de desenvolvimento e realização distintos daqueles empregados no cinema convencional.
A distribuição brasileira será realizada pela Embaúba Filmes, empresa sediada em Belo Horizonte e especializada na circulação de obras autorais nacionais. Com 90 minutos de duração, Ana, en passant chega aos cinemas em um momento de ampliação do debate sobre diversidade e representatividade no audiovisual, não apenas em relação às histórias apresentadas nas telas, mas também à presença de profissionais negros e mulheres em funções de criação e direção.
Ao relacionar a busca de uma jovem por suas origens com a história de diferentes gerações de mulheres negras, o longa propõe uma abordagem da memória como elemento de construção da identidade. Sua estreia comercial também amplia o espaço da animação brasileira para narrativas dramáticas voltadas ao público adulto, demonstrando as possibilidades do formato para além dos gêneros tradicionalmente associados a ele.


