Quando se fala na China hoje em dia, o imaginário costuma ir direto à modernidade e a um país cuja economia exerce forte influência no mundo. Mas nem sempre foi assim. Living the Land exalta justamente uma China rural e pobre, em choque com a modernidade em 1991.
Segundo longa de Huo Meng, a produção funciona como uma homenagem às suas histórias de infância, retratando as relações familiares e a forma como a vida rural se organiza no dia a dia. Muitas dessas histórias acabam gerando identificação, seja por experiências próprias, seja por memórias transmitidas de geração em geração.

Seguindo um tom natural, sem pressa, quase como se a câmera estivesse apenas observando a vida acontecer, conhecemos o garoto Chuang, que vê seus pais partirem para o Sul em busca de melhores oportunidades de trabalho, enquanto ele permanece no vilarejo com a família.
É nesse cotidiano que acompanhamos Chuang indo ao colégio e nos deparamos com peculiaridades marcantes, como o pagamento da mensalidade escolar feito em sacos de trigo, e não em dinheiro. Mesmo “no meio do nada”, a tia o incentiva a tirar boas notas, pensando em uma futura faculdade, numa tentativa clara de romper com o ciclo aparentemente interminável que prende gerações da família ao interior.
Com o passar dos dias, o filme acompanha cada um dos familiares de Chuang, o casamento da tia, o rígido controle de natalidade da China, o esforço do Estado em registrar seus habitantes e a convivência com uma geração idosa que sequer possuía nome oficial. A bisavó do próprio Chuang, por exemplo, é registrada apenas como Sra. Li-wang nº 3.

É nesse contexto simples, marcado por uma população pouco esclarecida e por estruturas comunitárias muito sólidas, que os primeiros sinais de mudança começam a surgir. Tratores aparecem, a eletricidade chega, e até uma televisão “comunitária” é ligada na rua, reunindo todos ao redor para assistir juntos. São pequenos indícios de uma modernidade que já existia em outras partes do mundo, mas que finalmente alcançava essa China rural. Nesse ponto, é inevitável traçar um paralelo com o Brasil da mesma época, como visto em obras como a novela Tieta, que também retrata a chegada da eletricidade e da televisão num ambiente também rural, como Agreste.
Um dos momentos mais curiosos acontece quando os pais de Chuang retornam para o Ano Novo Chinês e falam sobre a região onde estão vivendo. O feriado nacional surge como um elo entre famílias separadas pela migração e, ao mesmo tempo, revela uma juventude que passa a enxergar outros horizontes, sonhando em seguir caminhos parecidos com os dos pais de Chuang em busca de um futuro melhor. Algo que não só gera identificação, como reflete um movimento bastante comum também no Brasil.
Huo Meng mantém esse recorte intimista ao longo de todo Living the Land, apostando em um elenco de atuação extremamente natural e em cenas longas que não apenas valorizam o cenário, mas fortalecem a conexão com os personagens. O filme é construído a partir de pequenas histórias, como a bisavó ensinando a colocar pedras para aumentar o peso do algodão, momentos simples que geram identificação e evocam memórias familiares.
Wang Shang entrega um Chuang contido e verdadeiro, mas quem realmente rouba a cena é Zhang Chuwen no papel da bisavó, com suas histórias, observações afiadas e respostas sempre na ponta da língua.
Por seu tom intimista e repleto de memórias familiares, Living the Land constrói o retrato de uma China prestes a mudar. Ao mesmo tempo, ao se apoiar em histórias universais, o filme ultrapassa fronteiras culturais e acaba falando também sobre nós. Talvez seja justamente aí que more sua maior força.
Trailer
Ficha Técnica

Nota: 4,5 (de 5)
Living the Land
Direção e roteiro: Huo Meng
Produção: Zhang Fan, Xu Chunping, Yao Chen, Jiang Hao, Cai Yuan
Elenco: Wang Shang, Zhang Chuwen, Zhang Yanrong, Zhang Caixia, Cao Lingzhi
Fotografia: Guo Daming
Montagem: Huo Meng
Trilha sonora: Wan Jianguo
Produção: Floating Light Film and Culture Co., Ltd.; Film Group; Phoenix Legend Films Co., Ltd.; Bad Rabbit Pictures Co., Ltd.; Lianray Pictures
Distribuição: Autoral Filmes
Estreia: 05 de fevereiro
Duração: 132 minutos
País: China
Idioma: Mandarim
Agradecimentos a Autoral Filmes pela produção deste conteúdo


