O multiartista mineiro Andersen Viana lança Histórias Cinematográficas (Editora Sinete), um livro que se afasta deliberadamente da ideia de literatura como ponto final. A obra reúne sete narrativas concebidas como cenas filmáveis, argumentos abertos e experiências visuais, pensadas desde a origem para dialogar com o cinema e o audiovisual.
Desenvolvido ao longo de sete anos, o livro parte de uma premissa clara: escrever já imaginando enquadramentos, cortes, atmosferas e ritmo, como se cada texto fosse um embrião de filme.
Contos que funcionam como projetos audiovisuais


Cada narrativa é independente e antecedida por uma sinopse, recurso que aproxima o livro da lógica de apresentação de projetos cinematográficos. Em dois contos, Andersen aposta ainda em micro-histórias inseridas dentro da trama principal, estratégia comum no cinema contemporâneo e nas séries, que amplia as possibilidades de adaptação, fragmentação e releitura.
Os textos não pedem apenas leitura linear. Eles sugerem escolhas de câmera, locações e movimentos narrativos, funcionando como ponto de partida para curtas, médias ou longas-metragens — inclusive em formatos mais experimentais.
Gêneros, referências e imagética forte
Histórias Cinematográficas transita por thriller psicológico, suspense, realismo fantástico, terror, ficção científica e drama. As influências vão de Guimarães Rosa e Ariano Suassuna a Kafka, Edgar Allan Poe e Gene Roddenberry, criador de Jornada nas Estrelas.
Mais do que referências literárias ou cinematográficas diretas, o livro aposta em imagens mentais fortes. A ação, o espaço e o tempo são tratados como motores da narrativa, reforçando o caráter visual dos contos.
Arte total em tempos de imagem
Para Andersen Viana, o livro dialoga com um contexto histórico em que o audiovisual ocupa posição central. “Desde o cinema falado, entramos definitivamente na era do audiovisual”, afirma o autor. Histórias Cinematográficas se insere, assim, em um projeto interdisciplinar mais amplo, no qual música, cinema, literatura, performance e artes visuais se contaminam mutuamente.
A proposta não é adaptar a literatura ao cinema, mas criar um território híbrido onde as linguagens já nascem atravessadas.
Leitura crítica e recepção
O cineasta, ator e professor Cláudio Costa Val destaca o caráter cinematográfico da obra ao definir os contos como “vários filmes”, capazes de conduzir o leitor por ambientes inesperados, ações imprevisíveis e atmosferas densas, tensionadas entre poesia e estranhamento.
A observação reforça a ideia de que o livro não funciona apenas como coletânea de histórias, mas como um conjunto de propostas narrativas abertas.
Reconhecimento no audiovisual
Com mais de 50 prêmios e distinções internacionais, Andersen Viana também tem trajetória consolidada no cinema. Seu filme-ópera Pitágoras de Samos circulou por festivais na Europa, Américas, Ásia e Oriente Médio, acumulando premiações em categorias como direção, roteiro e trilha sonora.
Essa experiência transparece no livro, que assume sem pudor sua condição híbrida entre literatura e audiovisual.
Um convite à adaptação e à experimentação
Voltado tanto a leitores quanto a roteiristas, diretores e profissionais do audiovisual, Histórias Cinematográficas se apresenta como um livro que convida à transposição de linguagem. A obra estimula explicitamente a filmagem das cenas sugeridas — inclusive com celulares — reforçando a ideia de que o texto é matéria-prima, não produto final.
Em um cenário em que fronteiras entre mídias se tornam cada vez mais porosas, o livro de Andersen Viana surge menos como ponto de chegada e mais como disparador criativo.
Histórias Cinematográficas está à venda no site da Editora Sinete.


