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Carcereiras | Documentário brasileiro estreia no É Tudo Verdade

Filme de Julia Hannud acompanha agentes penitenciárias e expõe os efeitos do sistema prisional para além das detentas

Selecionado para o É Tudo Verdade, o documentário “Carcereiras” chega com uma proposta direta: inverter o ponto de vista mais comum quando o assunto é sistema prisional feminino e observar quem está do outro lado das grades, sustentando uma rotina marcada por vigilância constante, desgaste emocional e decisões que raramente cabem em respostas simples.

Dirigido por Julia Hannud, o longa acompanha duas agentes penitenciárias que trabalham em unidades do interior de São Paulo, partindo de histórias individuais para construir um retrato mais amplo de uma profissão que, embora pouco discutida, carrega riscos estruturais e impactos que ultrapassam o expediente.

Entre rotina, distância e desgaste

O filme segue Ana Paula, de 42 anos, e Mariana, de 25, que não se conhecem, mas compartilham um cotidiano semelhante, marcado por turnos extensos, distância da família e a expectativa constante de mudança, seja por transferência de unidade ou por uma tentativa de reorganizar a própria vida fora dos muros do presídio.

A narrativa evita dramatizações fáceis e trabalha com observação contínua, mostrando como o ambiente prisional molda comportamentos, relações e escolhas pessoais, especialmente quando o trabalho exige disciplina rígida e, ao mesmo tempo, algum nível de empatia para lidar com outras mulheres em situação de vulnerabilidade.

Um sistema que afeta todos os lados

Ao deslocar o foco das detentas para as agentes, “Carcereiras” amplia a discussão sobre o sistema prisional ao evidenciar que a lógica de controle e vigilância não se limita a quem está encarcerado, mas também impacta quem opera essa estrutura diariamente, criando um estado de tensão que se prolonga para além do ambiente de trabalho.

A diretora, que há mais de uma década pesquisa o universo do cárcere feminino, utiliza o filme para aprofundar essa leitura e tratar o sistema como um espaço onde diferentes formas de pressão coexistem, revelando um cenário em que as fronteiras entre função profissional e vida pessoal se tornam cada vez mais difusas.

Estreia em festival e trajetória da diretora

“Carcereiras” terá sua estreia mundial no É Tudo Verdade, que acontece entre 9 e 19 de abril, consolidando a trajetória de Julia Hannud dentro do documentário autoral, especialmente em projetos que investigam direitos humanos e experiências femininas em contextos de confinamento.

Antes do novo longa, a diretora já havia abordado o tema em obras como “Saudade Mundão”, mantendo um interesse contínuo por narrativas que expõem as estruturas sociais por trás do sistema prisional, agora ampliadas por um recorte que desloca o olhar e questiona, de forma direta, quem sustenta esse funcionamento no dia a dia.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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