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Crítica | Vivendo em dois mundos com Amarela

Curta indicado ao Palma de Ouro traz reflexão das novas gerações da comunidade nipo-brasileira

Lançado no ano passado e atualmente disponível no Globoplay, Amarela é um curta de André Hayato Saito que retrata 1998, em plena época de Copa do Mundo, a partir da visão de uma jovem nipo-brasileira sobre sua própria família e o Brasil.

Com roteiro assinado por Tati Wan, Luigi Rossi Madormo e o próprio André Hayato Saito, Amarela reverbera a sensação de viver entre dois mundos ou, às vezes, em nenhum. Ao mesmo tempo em que a cultura japonesa é essencial para manter laços familiares, muitos descendentes não se sentem totalmente “japoneses” nem brasileiros, especialmente ao enfrentarem preconceitos velados nas ruas.

É nesse contexto que conhecemos Erika Shigeru (Melissa Uehara), uma jovem de 14 anos que gosta de futebol, mas vive “nos trilhos” impostos por sua família. Em festas familiares, amassa o arroz para fazer moti, pratica Rádio Taissô com senhoras mais velhas e, ao mesmo tempo, encara o corre-corre da cidade grande, como São Paulo.

Embora o preconceito pareça estar apenas nas ruas, ele também se manifesta dentro de casa. Familiares de Erika comentam sobre não “folgar” como os “gaijins”, termo usado de forma equivocada e pejorativa para se referir a não descendentes de japoneses.

Erika é uma telespectadora como qualquer um de nós e percebe que sua família valoriza tudo o que é japonês, enquanto ela não pensa da mesma forma. Ainda assim, fora de casa, é vista como japonesa ao interagir com outras pessoas.

Viver entre dois mundos é transitar por discursos que ficaram no passado. Ao perceber que o irmão está namorando uma “nihonjin”, como a avó questiona, e cursando uma faculdade, fica evidente que, mesmo após mais de cem anos de presença no Brasil, ainda persiste a ideia de que descendentes deveriam se relacionar apenas entre si.

Amarela também dialoga com temas presentes em produções japonesas, como Haru to Natsu, da NHK, que abordam questões delicadas sobre identidade. Essas obras mostram uma comunidade que, ao mesmo tempo em que se consolida em outro país, mantém o desejo de retorno ao Japão e a valorização de laços dentro do mesmo “sangue”.

Voltando ao curta, Erika representa esse conflito. Quando ela explode durante um jogo da seleção brasileira, o momento simboliza o limite de alguém que não se sente pertencente a lugar algum.

André Hayato Saito consegue, em apenas 15 minutos, condensar uma história sobre preconceito e identidade, na qual Erika brilha ao tentar encontrar seu espaço no mundo. Sensível e direto, Amarela mostra que o preconceito não é unilateral e se manifesta em diferentes direções.

Ficha técnica

Nota: 5 (de 5)

Amarela

Direção
André Hayato Saito

Duração: 15 min
Gênero: Drama
País: Brasil
Ano: 2024
Classificação: 12 anos
Distribuidor: Sato Company

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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