A MUBI lança em 30 de abril os episódios finais de Blossoms Shanghai, concluindo a primeira série dirigida por Wong Kar Wai. Os capítulos 21 a 30 fecham a trajetória de Ah Bao, personagem que ascende no cenário empresarial da Xangai dos anos 1990 em meio a disputas financeiras, relações complexas e mudanças estruturais na sociedade.
A produção acompanha não apenas a evolução do protagonista, mas também o fim de um ciclo para os personagens ao seu redor, refletindo o encerramento da chamada “corrida do ouro” inicial da cidade e o início de uma nova fase.
Formato de série amplia a narrativa

Segundo o próprio Wong Kar Wai, a escolha pelo formato episódico foi essencial para adaptar a obra original. Diferente de um longa, a série permitiu “preservar a acumulação de pequenos momentos” que revelam uma época inteira.
Com 30 episódios, a produção foi tratada como “equivalente a cerca de quinze filmes”, mantendo o rigor cinematográfico em cada cena. O projeto levou quase uma década para ser concluído, passando por interrupções durante a pandemia até chegar à versão final.
Xangai como personagem central

Mais do que pano de fundo, a cidade é um elemento ativo na narrativa. Wong descreve a escolha das locações como uma decisão emocional, não turística.
Regiões como Huanghe Road foram recriadas em escala real para representar o epicentro econômico da época, enquanto áreas industriais e margens do rio mostram o contraste social. A proposta foi construir “coordenadas emocionais” que traduzem o espírito da cidade em transformação.
O diretor também destaca a conexão entre Xangai e Hong Kong, tratadas como “cidades-espelho”, reforçando um tema recorrente em sua obra.
Estilo visual e tempo como linguagem
A série mantém marcas registradas do diretor, como o uso de step-printing, técnica que condensa o tempo na imagem. Aqui, ela funciona como metáfora para a velocidade da década de 1990, período de crescimento acelerado e mudanças intensas.
Além disso, elementos como música pop da época e iluminação neon não são apenas estéticos, mas funcionam como memória sensorial, reconstruindo emoções e contexto histórico.
Wong também reutiliza temas musicais de obras como 2046, criando uma continuidade temática baseada em tempo, memória e perda.
Personagens definidos por cultura e identidade
A série aposta em elenco local, incluindo Hu Ge, Ma Yili e Tang Yan, para capturar a autenticidade do dialeto e da vivência cultural.
Cada personagem reflete uma camada da sociedade em mudança. Relações de negócios, encontros à mesa e até escolhas gastronômicas funcionam como extensão da identidade e do status social, reforçando a ideia de que “o que se consome define quem se é”.
Uma obra sobre origem e memória

Para Wong Kar Wai, Blossoms Shanghai tem um significado pessoal. Nascido na cidade, ele vê a série como uma reconstrução de suas próprias origens.
O projeto representa, segundo o diretor, uma tentativa de “preservar e escavar memórias”, conectando sua filmografia anterior a esse novo capítulo. Mais do que revisitar o passado, a série busca capturar a energia de um momento em que tudo estava sendo redefinido.
Com os episódios finais, a obra fecha esse ciclo, consolidando-se como um dos trabalhos mais ambiciosos da carreira do cineasta.


