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Crítica | Entre medo e sobrevivência, “Cinco Tipos de Medo” encontra sua força

Novo filme de Bruno Bini transforma Cuiabá em palco de um thriller urbano intenso, conectando violência, sobrevivência e personagens marcados pela dor.

Ambientado em Cuiabá, longe das histórias normalmente concentradas no eixo Rio-São Paulo, “Cinco Tipos de Medo”, novo longa de Bruno Bini, já deixa claro em seus primeiros minutos qual será sua proposta: discutir os diferentes medos que movem as pessoas. E faz isso transformando uma única noite em um verdadeiro efeito dominó social.

Conhecemos Murilo (João Vitor Silva), jovem que sobreviveu à Covid, mas perdeu a mãe durante a pandemia. Tentando reconstruir a vida, ele reencontra a enfermeira Marlene (Bella Campos), que esteve ao seu lado no hospital. O que começa como um romance rapidamente ganha contornos mais perigosos quando Murilo descobre que Marlene vive no Jardim Novo Colorado e se relaciona com Sapinho (Xamã), traficante respeitado pela comunidade.

Só que o relacionamento entre Marlene e Sapinho existe muito mais por sobrevivência do que por amor. E “Cinco Tipos de Medo” entende bem como trabalhar essa sensação constante de prisão emocional dentro da periferia. Quando Sapinho descobre a existência de Murilo, a violência explode de vez, desencadeando uma sequência de acontecimentos que conecta diferentes personagens e núcleos da trama.

É justamente nessa fragmentação narrativa que o filme encontra sua principal força. Bruno Bini conduz o longa quase como um quebra-cabeça social, mostrando como as consequências daquela noite atravessam todos os personagens ao mesmo tempo. Enquanto Murilo tenta sobreviver após o ataque, Marlene luta para escapar daquela realidade e Sapinho tenta manter o controle da comunidade, novos personagens surgem conectados diretamente ao caos instalado.

Entre eles está o advogado Ivan, figura importante para entender como o filme enxerga a relação entre poder, medo e sobrevivência. Conforme a comunidade tenta trazer Sapinho de volta às ruas, o longa constrói um discurso desconfortável sobre ausência do Estado e a forma como líderes criminosos acabam ocupando espaços de proteção dentro dessas regiões.

E talvez o aspecto mais interessante de “Cinco Tipos de Medo” seja justamente não simplificar seus personagens. Sapinho é impiedoso, explosivo e violento, mas também surge como alguém visto pelos moradores como necessário para manter certa ordem. O filme trabalha constantemente nessa lógica do “ruim com ele, pior sem ele”, criando uma tensão moral que move boa parte da narrativa.

Xamã entrega um dos personagens mais fortes do longa. Mesmo para quem acompanhou trabalhos recentes do artista em novelas, aqui existe uma leitura diferente do arquétipo do traficante. Sapinho tem presença, personalidade e funciona como uma figura que impõe respeito em cada cena em que aparece.

Bella Campos também encontra bons momentos como Marlene, principalmente ao mostrar o conflito interno da personagem. Existe nela um desejo constante de romper com aquela realidade e buscar uma vida diferente, mas o filme deixa claro como sair desse ambiente nunca é simples.

Já João Vitor Silva conduz Murilo como alguém marcado pelo trauma e pela perda. Depois de sobreviver à pandemia e quase morrer novamente durante o ataque, o personagem passa a viver em estado permanente de tensão, algo que o longa utiliza bem para manter o suspense crescente até os minutos finais.

Como thriller urbano, “Cinco Tipos de Medo” funciona justamente por nunca deixar claro até onde aquela espiral de violência irá chegar. Bruno Bini transforma Cuiabá em um espaço vivo dentro da narrativa, fugindo dos retratos mais tradicionais do cinema nacional e reforçando como ainda existem muitas histórias brasileiras pouco exploradas nas telonas.

Com diferentes núcleos, reviravoltas e personagens conectados pela dor, o longa impressiona pela sensação constante de urgência. Tudo parece prestes a explodir o tempo inteiro.

Mais regional e autoral, “Cinco Tipos de Medo” encontra força ao transformar medo, violência e sobrevivência em um retrato social intenso. E no fim, deixa uma pergunta desconfortável no ar: quando o Estado deixa de existir para essas comunidades, quem ocupa esse espaço?

Ficha Técnica

Nota: 4 (de 5)

Cinco Tipos de Medo

Elenco: Rui Ricardo Diaz, Bárbara Colen, João Vitor Silva, Bella Campos, Xamã 

Produção: Plano B Filmes, Druzina Content

Coprodução: Quanta
Distribuidora: Downtown Filmes
Produção Executiva: Luciana Druzina, Bruno Bini, Amanda Ruano
Direção: Bruno Bini
Roteirista: Bruno Bini
Direção de Fotografia: Ulisses Malta Jr.
Direção de Arte: Pedro von Tiesenhausen
Trilha Sonora Original: Leo Henkin
Montagem: Bruno Bini
Desenho de Som: Kiko Ferraz e Ricardo Costa

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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