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Escola Sem Muros | Filme de Cao Hamburger traz protagonistas determinados a mudar o destino de uma escola pública marcada por estigmas

Na São Paulo dos anos 1990, uma escola apelidada de “lixão” virou símbolo de resistência, superação e transformação social. É dessa história que nasce Escola Sem Muros, novo longa de Cao Hamburger (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Pedro e Bianca), cujas filmagens começaram no final de junho na capital paulista. Com Júlio Andrade, Flávio Bauraqui e Larissa Bocchino nos papéis principais, o projeto carrega a intensidade de um slice of life urbano com a estrutura de um bom arco de redenção.

Inspirado livremente na trajetória da Escola Estadual Campos Salles, localizada em Heliópolis, o filme se passa em 1995, quando o novo diretor Braz Nogueira (Andrade) assume o comando de uma instituição completamente desacreditada. Vista como “escola de fim de linha” — quase como aquelas turmas de delinquentes que a gente vê a Campos Salles era isolada da própria comunidade que atendia. Mas, como em todo bom anime escolar, o protagonista decide quebrar o ciclo de abandono e violência com coragem, empatia e trabalho coletivo.

Quando o protagonismo é coletivo

Ao lado dos líderes comunitários Orlando (Bauraqui) e Rose (Bocchino), o novo diretor precisa reconstruir o elo entre escola e bairro, enfrentando a marginalização que marca seus alunos. A história, mesmo sendo ambientada há quase 30 anos, ressoa com temas ainda urgentes no Brasil de hoje: a negligência do poder público, o estigma das periferias e a potência transformadora da educação.

Hamburger, que também assina o roteiro com Thayna Mantesso (Sete Prisioneiros), Tom Hamburger e Marcelo Gomes, se apoia em sua experiência com narrativas juvenis de impacto social — como em Malhação: Viva a Diferença e Pedro e Bianca, ambas vencedoras do Emmy Internacional. “A história do Ensino Público no Brasil acompanha a desigualdade desde os tempos da colônia”, diz o diretor. “Mas há projetos como o da Campos Salles que provam que uma escola pública de qualidade é possível — e necessária.”

Elenco com alma, cenário sem Wi-Fi

Boa parte do elenco adolescente foi recrutada em oficinas realizadas em Heliópolis e outras regiões da cidade. Foram mais de mil candidatos, incluindo alunos e ex-alunos da própria Campos Salles. A imersão foi fundamental para trazer autenticidade, como acontece em produções japonesas que valorizam o cotidiano e os dilemas locais.

A ambientação dos anos 1990 exigiu um trabalho cuidadoso da equipe de arte. “É um mundo sem celular. Dá até saudade”, brinca Hamburger, que contou com Valdy Lopes (direção de arte), Cassio Brasil (figurino) e Pierre de Kerchove (fotografia) para reconstruir o ambiente da época.

O roteiro não tenta ser uma biografia literal. A partir de entrevistas com ex-alunos, professores e o próprio Braz Nogueira, a equipe criou uma narrativa que respeita os fatos sem abrir mão da dramaturgia. “Muitas histórias ficaram de fora, outras foram adaptadas. O filme é uma versão condensada do que foi vivido ali”, explica o diretor.

Uma história que carrega XP acumulado

Escola Sem Muros não é só mais um drama social: é uma jornada de transformação coletiva, com personagens reais enfrentando desafios estruturais tão complexos quanto qualquer trama de anime seinen. E como toda boa narrativa do gênero, não se trata apenas de vencer obstáculos, mas de mudar o cenário para as próximas gerações.

Ainda sem data de estreia confirmada, o longa chegará aos cinemas brasileiros pela Califórnia Filmes. E tudo indica que Escola Sem Muros tem tudo para emocionar não só pais e educadores, mas também quem cresceu com histórias sobre a importância de não desistir de ninguém — nem de uma escola, nem de um bairro, nem de um futuro melhor.

Entrevista com Cao Hamburger

– O que o motivou a contar esta história e a trazer este tema? Que mensagem quer passar com esta história?

Venho trabalhando e pesquisando sobre o Ensino Público no Brasil e como trabalhar o tema no audiovisual de forma atraente para o grande público há alguns anos, desde da série “Pedro e Bianca” e, depois, em “Malhação Viva Diferença” (ambas ganhadoras do Emmy Internacional, em 2014 e 2019, respectivamente)

Antes disso, ouvi muito sobre o tema com meu pai, que foi um grande divulgador de ciência e pensador da educação, e depois com minha filha, que é educadora no ensino público.

A história do Ensino Público no Brasil acompanha a história da desigualdade e da negligência da elite brasileira desde os tempos da colônia e do Império. O Brasil foi o último país a instituir o ensino público nas Américas, e quando o fez, privilegiou os filhos da elite. Somente em meados do século 20, começou a se pensar em uma escola pública para toda a população, mas projetos importantes foram encerrados com o Golpe Militar de 1964. Eu vivi esse rompimento quando estava em uma Escola Pública e lembro da precarização que a escola sofreu.

Somente com a redemocratização, em meados dos anos 1980, o trabalho de construir uma rede de ensino público de qualidade foi retomado. Aprendi com quem trabalha e estuda o assunto, que a infraestrutura gigantesca para atender esse país continental foi instalada nas últimas décadas. E que o sonho de uma rede pública de ensino de qualidade não está longe, apesar de todas as dificuldades e estigmas que a Escola Pública carrega no Brasil.

Essa história da Escola Campos Salles é um exemplo disso. Assim como outras escolas, é a prova que o Ensino Público de Qualidade é possível no Brasil. E é o único caminho para nos tornarmos um país justo e desenvolvido. Todos os países ricos têm uma Rede de Ensino público de qualidade para toda a população. A gente vê nos filmes e séries americanas, “High School Musical”, entre tantos exemplos, aquelas escolas lindas e não pensa que são escolas públicas.

– Por que escolher este elenco? Desde o início tinha pensado no Júlio e no Flávio? Algo especial que possa dividir?

Sim, desde do início pensei em Júlio Andrade e Flávio Bauraqui pela qualidade do trabalho e pela adequação aos personagens. Larissa Bocchino nos enviou um vídeo contando sua história com a educação que me conquistou na hora. 

O elenco adulto é sensacional: Angela Maris, Quitéria Kelly, Ciro Morais, Angela Ribeiro, Kinda Marques, entre outros. E o elenco de adolescentes passou por oficinas e preparação com a atriz Larissa Mauro e estão arrasando.

– Como estão trabalhando a produção de arte para o filme? Algo especial que possa adiantar para recriar o ano de 1995?

Um mundo sem telefone celular. Dá até saudades, nesse aspecto.

– Você mencionou no nosso papo que esta história nunca foi contada, não existe uma biografia do Braz ou algo dedicado a esta história. Como foi esse trabalho de pesquisa? Conversaram com o próprio Braz? Ele participou ou participa de alguma forma da produção?

Em 2018, começamos a pesquisa. Conversamos com muitos personagens da história. Ex-alunos, ex-professores, ex-funcionários, coordenadoras pedagógicas, líderes da comunidade de Heliópolis, além do próprio diretor, Braz Nogueira.

Juntando esses diferentes pontos de vista, criamos a nossa “versão” da história, e a resumimos ao tempo e a estrutura dramática de um filme, o que é muito difícil. Muitas histórias tiveram que ficar de fora. Outras tivemos que adaptar para fazer sentido. Enfim, o filme é uma livre recriação da história real.   

– Considerando que o filme é inspirado livremente em uma história real e envolve temáticas complexas, como violência e marginalização, qual a linha traçada para trazer a fidelidade dos fatos, mas sem reforçar estereótipos?

Muito cuidado em todos os aspectos da produção, incluindo a composição da equipe de roteiro e produção. Contamos, por exemplo, com Thay Mantesso, excelente roteirista (dos filmes “Sete Prisioneiros” e “Sócrates”).

– Como foi feita a seleção do elenco? Há moradores de Heliópolis envolvidos?

Sim, há alguns moradores de Heliópolis no elenco, além de alguns alunos e ex-alunos da própria Campos Salles. 

Para  a escolha do elenco adolescente, fizemos vídeos com mais de 1000 candidatos em Heliópolis e outras regiões de São Paulo. Contamos também com a colaboração de grupo de teatro de Heliópolis e outras regiões. Depois passaram por oficinas e preparação com a atriz Larissa Mauro e estão arrasando. Kitty Feo, primeira assistente de direção, e Alonso Zerbinato, produtor de Elenco, coordenaram essa fase. 

– Há alguma outra informação que gostaria de dividir? Bastidores, curiosidades?

O engajamento do elenco e da equipe com a história está sendo emocionante. 

Ficha Técnica:

Roteiro – Thayna Mantesso, Tom Hamburger, Cao Hamburger, Marcelo Gomes

Direção – Cao Hamburger

Assistente de direção – Kitty Feo

Direção de fotografia – Pierre de Kerchove

Direção de arte – Valdy Lopes

Figurino – Cassio Brasil

Som direto – Lia Camargo

Produção executiva – Rui Pires, Pablo Torrecillas, Ana Saito, Gabriela Tocchio, Pandora da Cunha Telles e Pablo Iraola

Produção – Caio Gullane, Fabiano Gullane, Cao Hamburger, Pandora da Cunha Telles e Pablo Iraola

Elenco – Julio Andrade, Larissa Bocchino, Flávio Bauraqui

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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