A lenda do Flautista de Hamelin atravessou fronteiras e chegou à Coreia do Sul em uma versão ainda mais sombria. “Os Piper” (The Piper), terror dirigido por Kim Gwang-tae em sua estreia no comando, finalmente chega ao Brasil na Rakuten Viki depois de marcar presença no circuito internacional desde 2015.
A trama mistura realismo histórico com alegoria política, situando a fábula logo após a Guerra da Coreia, período em que o país ainda respirava as cicatrizes do conflito.
A trama
Na década de 1950, um flautista manco chamado Woo Ryong (Ryu Seung-ryong) e seu filho doente, Young-nam, encontram refúgio em uma vila remota nas montanhas enquanto tentam chegar a Seul. Diferente do restante do país devastado, o vilarejo aparenta prosperidade sob a liderança de um chefe autoritário (Lee Sung-min).
Mas essa aparente paz esconde um problema: a vila está infestada de ratos. Woo Ryong aceita eliminar a praga em troca de dinheiro para o tratamento médico de seu filho. No entanto, quando cumpre sua parte, o chefe da vila nega o pagamento, mergulhando a história em uma espiral de traições, vingança e horror.
Inspirado diretamente na lenda europeia, o filme adapta o mito para refletir a realidade coreana: manipulação política, miséria escondida sob fachadas de poder e a violência das comunidades isoladas.
Produção e elenco
“Os Piper” é uma produção da UBU Film, distribuída pela CJ Entertainment, e foi filmado nas paisagens montanhosas da província de Gangwon, Coreia do Sul.
O elenco traz nomes de peso do cinema coreano:
- Ryu Seung-ryong como o flautista Woo Ryong
- Lee Sung-min como o chefe da vila
- Chun Woo-hee como Mi-sook, a jovem que se aproxima do protagonista
- Lee Joon como Nam-soo, o filho invejoso do chefe
Com 119 minutos de duração e orçamento de cerca de US$ 4 milhões, o longa arrecadou aproximadamente US$ 5,5 milhões nas bilheteiras.
Entre alegoria e terror
Mais do que um simples filme de horror, “Os Piper” constrói uma fábula política. O chefe da vila mantém os moradores na ignorância sobre o fim da guerra para conservar seu poder. Essa manipulação reflete tensões históricas reais e amplia o terror além dos ratos, explorando a crueldade humana em situações extremas.
O final, em que Woo Ryong se vinga conduzindo os ratos de volta para devorar os aldeões, preserva o tom de parábola sombria: a ganância e a mentira têm preço.
Crítica internacional
A recepção crítica foi majoritariamente positiva. Maggie Lee, da Variety, destacou a atmosfera sufocante e a forma como o filme equilibra alegoria política com horror visual. Já a Time Out elogiou o frescor diante da produção comercial coreana da época, chamando-o de “uma rajada de arrepios perversamente divertida”.
No Hollywood News, Luke Ryan Baldock deu quatro de cinco estrelas, ressaltando a recompensa para quem aprecia narrativas pesadas e sombrias. O Screen Anarchy foi além, considerando o longa “envolvente e emocionalmente ressonante”.
Um clássico sombrio do cinema coreano
Quase uma década após sua estreia na Coreia, “Os Piper” encontra agora o público brasileiro na Rakuten Viki. Para cinéfilos, é a chance de conhecer uma das mais interessantes releituras modernas do Flautista de Hamelin, reimaginada através das feridas da Guerra da Coreia e da tradição do terror folclórico.

