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Brasil perde espaço no streaming enquanto gigantes estrangeiras dominam o jogo, aponta Ancine

O Panorama VOD 2025, divulgado pela Ancine em parceria com o Ministério da Cultura, joga luz em um cenário que qualquer fã de cinema que navega pelas plataformas já percebeu: o catálogo nacional está cada vez mais difícil de encontrar. Mesmo com o mercado de streaming batendo recordes de assinantes e receita, a presença de produções brasileiras continua limitada, especialmente nas plataformas estrangeiras que ditam o consumo cultural no país.

O estudo reforça algo que o público e o setor vêm discutindo há anos. Sem regras claras para garantir equilíbrio competitivo, o audiovisual brasileiro perde espaço exatamente onde deveria brilhar. Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, a discussão não é sobre restringir mercado, mas sobre soberania cultural e diversidade.

Catálogos gigantes, presença brasileira mínima

Entre as cinco plataformas com maior audiência no Brasil, apenas 6,3 por cento do catálogo é composto por produções nacionais. Se retirarmos o Globoplay da equação, esse número despenca para 2,7 por cento entre as quatro maiores plataformas estrangeiras. A fatia de obras independentes brasileiras é ainda menor.

Em outras palavras, o público tem cada vez menos oportunidades de encontrar filmes, documentários, séries e animações nacionais. O estudo aponta que parte importante da produção brasileira permanece sub-representada, enquanto gêneros como documentário e animação praticamente não circulam entre serviços globais.

Para o presidente da Ancine, Alex Braga, o crescimento do streaming não tem sido acompanhado pelo crescimento da presença nacional. A assimetria estrutural cria um teto baixo para quem produz no Brasil e dificulta a formação de novas audiências.

A circulação limitada trava o alcance das obras

Além de aparecer pouco nos grandes catálogos, o conteúdo brasileiro circula ainda menos. Mais de 3.700 títulos nacionais estão disponíveis em apenas uma ou duas plataformas, o que reduz a chance de descoberta e derruba o potencial econômico de produtoras e distribuidoras.

O levantamento revela que apenas 52,3 por cento dos filmes brasileiros lançados entre 1995 e 2024 estão disponíveis em algum serviço de streaming. Quando olhamos para obras exibidas na TV por assinatura entre 2015 e 2024, apenas 27,5 por cento migraram para o ambiente digital. Essa falta de janelas afeta principalmente produções independentes, que dependem de múltiplos mercados para se manterem competitivas.

Plataformas brasileiras carregam o acervo nas costas

O estudo também mostra que as plataformas nacionais são as principais responsáveis por manter o acervo brasileiro vivo no VOD. Enquanto serviços brasileiros ofertam 3.906 obras nacionais, plataformas estrangeiras disponibilizam 3.641, apesar de seus catálogos gerais serem mais que o dobro em tamanho.

O desequilíbrio deixa claro que o esforço de preservação e difusão do conteúdo nacional recai sobre plataformas que operam com menos escala, menos dados e menos poder financeiro diante das gigantes globais.

A urgência de um marco regulatório

O Panorama VOD 2025 aponta que a oferta brasileira está encolhendo justamente no núcleo dominante do mercado. Segundo o Ministério da Cultura, isso não é uma consequência natural, mas o reflexo de uma estrutura sem regras que garantam equilíbrio e diversidade.

A solução defendida pelo governo e por parte do setor é a criação de um marco regulatório para o streaming. A ideia é ampliar competitividade, fortalecer plataformas brasileiras e garantir que obras independentes circulem de forma justa. Para o secretário-executivo Márcio Tavares, a regulação é essencial para que o conteúdo nacional deixe de ser exceção em um mercado que se beneficia de milhões de espectadores brasileiros.

O debate continua e o fã de cinema sente o impacto

Enquanto o streaming cresce, o espaço para o audiovisual brasileiro diminui. A discussão sobre regulação não é apenas técnica. Ela afeta diretamente a forma como o público descobre filmes nacionais e como o mercado se sustenta a longo prazo.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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