O painel Spotlight: Marcatti levou ao Palco Omni da CCXP25 um bate-papo direto, sem pose e cheio de histórias sobre a trajetória de Francisco de Assis Marcatti Júnior. Com quase cinco décadas de estrada, o quadrinista revisitou sua formação, os caminhos tortos da autopublicação no Brasil e o momento em que percebeu que a cultura nerd, como a gente conhece hoje, ainda estava nascendo por aqui.
Marcatti lembrou que sua atuação inicial não estava exatamente nos quadrinhos, mas no humor político, em um período em que publicar era mais resistência do que mercado. Foi nesse contexto que ele passou a experimentar formatos, linguagens e maneiras de circular seu trabalho, se tornando um dos nomes centrais da autopublicação nacional muito antes disso virar pauta recorrente em eventos e painéis.
Do underground ao reconhecimento recente

Entre memórias e provocações, o artista comentou o bom momento vivido por suas obras nos últimos anos. Segundo ele, alguns títulos chegaram à marca de três mil exemplares vendidos em apenas dois meses, um número expressivo para o mercado independente brasileiro. O dado surgiu de forma quase casual, mas ajuda a dimensionar como sua produção segue dialogando com leitores de diferentes gerações.
Durante a conversa, Marcatti relembrou obras que marcaram sua carreira e ajudaram a construir sua identidade autoral, sempre transitando entre o incômodo, o humor ácido e o experimentalismo.
Entre os títulos citados no painel estiveram: Mariposa e A Relíquia
Ele também comentou a satisfação de ver seus trabalhos circulando em diferentes formatos, dos clássicos gibis em papel jornal, com aquele cheiro inconfundível de banca, até edições mais robustas em capa dura. Para o artista, não se trata de hierarquia entre formatos, mas de possibilidades de acesso.
Gibi é para ler, não para decorar estante
Um dos momentos mais comentados do painel veio quando Marcatti falou sobre sua visão a respeito do papel dos quadrinhos na formação de leitores. Sem rodeios, ele resumiu sua filosofia de forma direta: gibi não é objeto de coleção intocável, é ferramenta de leitura.
Para ele, os quadrinhos seguem sendo uma porta de entrada fundamental para novas gerações, especialmente em um cenário em que a leitura longa enfrenta cada vez mais resistência. A linguagem visual, o ritmo e a síntese do gibi ajudam a criar vínculo com o texto, algo que o artista considera urgente no contexto atual.
Entre risadas da plateia e comentários afiados, o Spotlight deixou claro por que Marcatti continua sendo uma figura essencial para entender não só a história dos quadrinhos brasileiros, mas também seus caminhos futuros. Na CCXP25, o Palco Omni virou menos um espaço de homenagem e mais um território de troca, exatamente como o próprio artista parece gostar.


