Quando falamos da cultura LGBTQIA+ da década de 1990, voltamos a temas como AIDS, homofobia, violência sexual, entre outros assuntos que eram frequentemente abordados em filmes e séries da época. No mangá de Marimo Ragawa não é diferente, e “New York, New York”, mesmo sendo uma obra japonesa, leva sua história para Nova York, um espaço onde a liberdade sexual e o esclarecimento já eram maiores do que em muitos outros lugares, ainda que muito menores do que a compreensão que temos hoje.
Publicado originalmente entre 1995 e 1998, o mangá chega agora ao Brasil em um formato especial em dois volumes. Acompanhamos a história do policial Kain Walker ao lado de Mel Fredericks, um casal que se conhece em um bar e acaba se tornando o centro da narrativa.
Chegando ao Brasil após o boom de títulos de Boys Love e Girls Love no país, “New York, New York” resgata um clássico do gênero e nos apresenta não apenas as origens do BL no Japão, mas também um retrato muito específico de um tempo que já ficou para trás.
A história

Conhecemos o policial Kain Walker, que leva uma vida aparentemente normal em Nova York: combate o crime, tem bons parceiros de trabalho e pais carinhosos. No entanto, ele guarda um segredo, Kain é gay. Evitando envolvimentos sérios, ele prefere relações casuais, conhecendo rapazes em um bar localizado em outra região da cidade.
Em uma dessas noites, ele conhece Mel Fredericks. Os dois acabam passando a noite juntos, mas Mel vai embora logo pela manhã, sem trocar contatos. Kain se apaixona imediatamente e tenta reencontrá-lo, sem sucesso.
Desiludido, Kain sai com outro rapaz, mas acaba esbarrando com Mel na rua. O que poderia ser apenas um reencontro frustrado acaba se tornando o ponto de partida para que os dois se aproximem novamente e decidam explorar o que a vida pode oferecer a eles como um casal.
Vivendo juntos, Kain passa a descobrir que Mel carrega um passado extremamente doloroso, marcado por um relacionamento anterior abusivo. Com cicatrizes profundas nos pulsos, Mel é alguém que amou intensamente e traz consigo uma história de sofrimento. Determinado a protegê-lo a qualquer custo, Kain tenta construir um lar seguro para os dois.
A quantidade de tragédias pode afastar alguns leitores. Mel sofre abuso sexual durante um assalto, o que o impede de se relacionar com Kain por alguns dias. Dominado pelo medo de ter contraído HIV, ele corre para fazer exames e, ao descobrir que está bem, acaba esfriando temporariamente a relação entre os dois.
Para piorar, o amor do passado de Mel retorna para atormentar o casal. É nesse momento que Kain conhece em detalhes a história de seu namorado, mas isso não impede que velhos instintos venham à tona, levando-o a acabar na cama com o ex de Mel.
Como é possível perceber, “New York, New York” não poupa tragédias. Kain e Mel sofrem intensamente em sua busca por felicidade. Ainda assim, a esperança parece ganhar forma quando os dois visitam a casa dos pais de Kain. É a primeira vez que ele fala abertamente sobre sua sexualidade e apresenta o namorado à família. Mel, por sua vez, enfrenta o desafio de conquistar a sogra, que não aceita bem a relação e impõe regras, como impedir que os dois durmam juntos, colocando Mel no quarto de hóspedes.
Será que, afinal, os dois conseguirão ser felizes?
Sobre a edição brasileira

A edição publicada no Brasil pela Panini Comics conta com tradução de Luana Tucci, que flui muito bem ao longo da leitura. A única ressalva fica por conta de alguns balões de música que permanecem em inglês, sem tradução. Fora isso, a experiência de leitura é bastante agradável.
O mangá chega no formato 2 em 1, sendo concluído em dois volumes. O preço, R$ 74,90, pode afastar parte do público, mas é importante lembrar que cada volume possui cerca de 360 páginas, além de um marca página e um selo, o que torna o valor compatível com o mercado atual.
Opinião

O principal ponto a se destacar é que “New York, New York” pode causar certo estranhamento inicial por ser um mangá ambientado nos Estados Unidos. Superada essa sensação, a história flui bem e conquista o leitor com personagens carismáticos e envolventes.
É verdade que Marimo Ragawa pesa a mão no drama, acumulando tragédias na vida do casal e retratando situações que refletem um recorte específico das vivências LGBTQIA+ da época. Ainda assim, é justamente a dinâmica entre Kain e Mel, com todas as suas falhas, que torna a leitura tão interessante.
Para não dizer que o mangá tem só tragédias, Mel trabalha num bar com chefe drag queen que leva a história pra um caminho mais leve, além do Kain ter histórias com amigos policiais que rendem um universo bastante rico por aqui.
Vale lembrar que estamos falando de um mangá da década de 1990. Traições, comportamentos tóxicos e até o machismo excessivo de Kain são reflexos diretos daquele período. Podemos torcer o nariz hoje, mas, considerando o contexto em que a obra foi criada, é possível compreender, ainda que não concordar, o amor condicional que Mel nutre por ele.
Embora não vivamos hoje em um cenário ideal, contamos com leis, maior esclarecimento e políticas públicas que combatem a homofobia e a violência sexual com mais rigor. Além disso, existem medicamentos e campanhas eficazes no Brasil voltadas à prevenção e ao tratamento do HIV/AIDS. Por isso, é compreensível que parte do público, especialmente o mais jovem, tenha dificuldade em se conectar com a história, que pode soar datada ou exagerada.
Ainda assim, “New York, New York” é um documento histórico. Ele resgata uma forma de contar histórias que já não vemos com frequência nos mangás do gênero, e esse é justamente o maior valor de sua publicação no Brasil atualmente.
Um grande acerto da Panini Comics, “New York, New York” não é uma leitura para todos, mas é uma história cativante, que aborda questões sociais importantes, lutas pessoais intensas e apresenta um casal que, apesar de todos os defeitos, é profundamente apaixonado.
Ficha técnica

Nota: 5 (de 5)
New York, New York #01
Título: New York, New York #01
Autora: Marimo Ragawa
Ano de publicação: 2025
Mês de lançamento: Dezembro
Número de páginas: 360
Formato: Tankobon
Acabamento: Capa cartão
Classificação indicativa: 18 anos

