Durante décadas, Gala Dalí foi tratada como nota de rodapé na história da arte. Musa, esposa, figura excêntrica. O solo “Gala Dalí”, escrito e interpretado por Mara Carvalho e dirigido por Ulysses Cruz, parte justamente dessa redução para desmontá la. O espetáculo volta ao Teatro Sérgio Cardoso para uma curta temporada entre 3 e 25 de março, com sessões às terças e quartas, às 20h.
Em cena, Gala deixa de ser coadjuvante da genialidade masculina e passa a ocupar o centro da narrativa. A montagem propõe um retrato direto e sem verniz de uma mulher que teve papel decisivo na construção da obra e do mito de Salvador Dalí, mas que pagou caro por não caber nos papéis esperados.
Muito além da musa

O espetáculo se estrutura como um relato fragmentado, sem ordem cronológica rígida, que atravessa infância, juventude, relações afetivas, dinheiro, poder, desejo e julgamento social. Gala surge como alguém que construiu a própria persona com plena consciência das consequências. Não há tentativa de absolvição nem de condenação. O interesse está na complexidade.
Mara Carvalho conduz o público por essa trajetória em tom de conversa, alternando humor, provocação e reflexão. A encenação é direta, sem excessos, e aposta na palavra e na presença da atriz para sustentar a narrativa. O resultado é um retrato que se afasta da idealização e se aproxima da contradição.
“Quando se fala em musa, normalmente se pensa só em beleza física. Gala se tornou musa pela inteligência e pela ousadia”, afirma a atriz. A frase funciona quase como chave de leitura do espetáculo.
Autonomia em um mundo masculino
Embora ambientado em outro tempo, o texto dialoga de forma evidente com o presente. A luta de Gala por autonomia, sua recusa em se enquadrar e o incômodo que isso gerou continuam reconhecíveis. A personagem atravessa temas como maternidade, sexualidade, ambição e poder sem pedir permissão, algo que ainda hoje provoca reações.
Ao revisitar episódios como o casamento com Paul Éluard, o encontro com Dalí e a rejeição social que enfrentou, o espetáculo expõe as estruturas que tentaram silenciá la. O foco, no entanto, não está no escândalo, mas na escolha. Gala sabia o que queria e bancou.
Uma conversa direta com o público
Com diálogo constante com a plateia, “Gala Dalí” assume um formato quase confessional, no qual memória e reflexão se misturam. Entre lembranças e comentários afiados, a personagem fala de arte, paixão, dinheiro, gastronomia, vida e morte, sempre com humor e lucidez.
Ao final, o espetáculo deixa claro que a história de Gala não é apenas sobre o passado da arte europeia, mas sobre mulheres que se recusam a existir apenas como extensão de alguém. Em vez de responder quem foi Gala Dalí, a peça propõe algo mais interessante: por que ainda é tão difícil aceitar figuras como ela.
Serviço
Espetáculo: Gala Dalí
Temporada: de 3 a 25 de março, terças e quartas, às 20h
Local: Teatro Sérgio Cardoso, Sala Paschoal Carlos Magno
Endereço: Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo
Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia), à venda na Sympla
Duração: 65 minutos
Classificação etária: 12 anos

