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Destino da Pele resgata memória e feridas do racismo em curta ambientado na Amazônia

Filme dirigido por Marcela Bonfim acompanha o reencontro de dois personagens marcados pelo passado e discute racismo, afeto e identidade a partir da vivência de uma mulher negra em Rondônia

Algumas histórias parecem pequenas quando começam. Um reencontro, uma lembrança, uma conversa antiga que volta à tona. Em Destino da Pele, curta de 15 minutos dirigido por Marcela Bonfim, esse ponto de partida vira um mergulho em memórias difíceis e na forma como o racismo molda trajetórias.

Ambientado entre passado e presente, o filme acompanha Tereza, uma benzedeira que vive em Guajará Mirim, em Rondônia. Depois de meio século, ela reencontra Joaquim, alguém que pode ter sido mais do que um amigo de infância. O encontro reacende lembranças que ela passou décadas tentando deixar para trás.

A produção parte de uma história pessoal, mas fala de algo maior: as marcas do racismo e da solidão afetiva que atravessam a vida de muitas mulheres negras no Brasil.

Memória que volta para cobrar

O reencontro com Joaquim faz Tereza revisitar episódios da infância, especialmente a rejeição que sofreu na escola por causa da cor de sua pele. Essas lembranças, guardadas por anos, voltam à superfície.

O curta acompanha esse movimento interno da personagem. Em vez de fugir do passado, ela decide encará lo de frente. A narrativa constrói esse processo como um caminho de reconstrução, no qual a dor também pode abrir espaço para cura.

A ideia de destino aparece justamente para ser questionada. O filme provoca o público a pensar até que ponto certos caminhos são impostos socialmente, especialmente quando o assunto é raça.

Amazônia como território de memória

O roteiro se inspira em histórias reais vividas em Rondônia. A própria região onde o filme foi rodado carrega camadas importantes dessa memória.

Guajará Mirim fica no Vale do Guaporé, área marcada pela presença de comunidades negras desde o período colonial. A construção do Forte Príncipe da Beira, os ciclos da borracha e do ouro e a formação de quilombos deixaram marcas profundas na história local.

As filmagens aconteceram na própria cidade e contaram com moradores da região como figurantes. O resultado é um curta que mistura ficção com vivências muito próximas da realidade da comunidade.

Quem está por trás do filme

A direção e o roteiro são de Marcela Bonfim, fotógrafa e pesquisadora conhecida pelo projeto Amazônia Negra, dedicado a registrar e documentar a presença histórica de populações negras na região amazônica.

A pesquisa do filme é assinada por Agrael de Jesus, que também interpreta a protagonista Tereza. O elenco ainda traz Haroldo José Guerreiro Saraiva como Joaquim.

Completam o núcleo principal Maria Waldelice da Silva no papel de Vovó, Gabrielly Vitória do Nascimento Azevedo como Tereza criança e Lucas Ribeiro Silva Santos como Joaquim na infância.

Mais do que um drama sobre um reencontro, Destino da Pele funciona como um lembrete de que certas histórias pessoais carregam um peso coletivo. Às vezes, olhar para trás não é nostalgia. É sobrevivência.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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