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Pele de Vidro revisita edifício marcado por tragédia em documentário pessoal sobre memória e cidade

Filme de Denise Zmekhol parte da história de seu pai, arquiteto do prédio no centro de São Paulo, para discutir desigualdade e transformações urbanas

Alguns filmes nascem de uma pergunta íntima. Pele de Vidro, novo documentário de Denise Zmekhol, começa quando a diretora descobre que a obra mais famosa de seu pai havia se transformado em um símbolo de crise urbana no Brasil.

O longa estreia nos cinemas brasileiros em 19 de março e tem como ponto de partida o Edifício Wilton Paes de Almeida, arranha céu modernista localizado no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo.

Projetado pelo arquiteto Roger Zmekhol, pai da cineasta, o prédio ficou conhecido décadas depois por ter sido ocupado por centenas de pessoas sem moradia. A descoberta leva Denise a iniciar uma investigação que mistura memória familiar, história da cidade e desigualdade social.

Um encontro entre memória pessoal e história urbana

A diretora conta que soube da ocupação do prédio em 2017, após passar cerca de vinte anos vivendo nos Estados Unidos. A notícia reabriu uma relação interrompida cedo demais com o pai, que morreu quando ela ainda era criança.

Movida por essa curiosidade, Denise volta ao Brasil para tentar entender o destino do edifício. A princípio, a ideia era revisitar a obra do arquiteto. Mas o projeto muda de rumo quando ela passa a conhecer as famílias que viviam no local.

A aproximação acontece de forma lenta. Inicialmente impedida de entrar no prédio, a cineasta segue acompanhando a situação à distância. Até que um evento muda tudo.

O incêndio que transformou a história

Em 1º de maio de 2018, o prédio pega fogo e desaba parcialmente. O episódio chocou a cidade e colocou o edifício no centro do debate sobre moradia no país.

Após a tragédia, Denise passa semanas conversando com sobreviventes do incêndio. As histórias dessas famílias acabam se tornando parte essencial do filme.

A diretora descreve o processo como um choque emocional. O prédio que representava a memória de seu pai também era o único refúgio para muitas daquelas pessoas.

A partir desse ponto, Pele de Vidro deixa de ser apenas um documentário sobre arquitetura. O filme se transforma em um retrato da complexidade social do Brasil contemporâneo, onde memória, cidade e desigualdade acabam inevitavelmente entrelaçadas.

Uma trajetória que já circulou pelo mundo

Coprodução entre Brasil e Estados Unidos, o documentário passou por mais de 60 festivais internacionais e acumulou 13 prêmios. Entre eles estão reconhecimentos em festivais dedicados à arquitetura na França, Itália, Espanha e Suécia, além do prêmio do público no Mill Valley Film Festival e uma menção honrosa no Ischia Film Festival.

Com cerca de 90 minutos, o filme chega agora ao circuito comercial brasileiro com distribuição da Autoral Filmes.

Mais do que revisitar um edifício emblemático, Pele de Vidro funciona como uma reflexão sobre como as cidades guardam histórias que nem sempre aparecem na fachada de vidro dos prédios. Às vezes é preciso olhar para dentro das ruínas para entender o país que se construiu ao redor delas.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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