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Crítica | Entre rebeldia e pertencimento, Enzo busca respostas na adolescência

Produção ítalo-francesa, Enzo chega aos cinemas com uma jornada universal pela qual muitos jovens passam durante a adolescência. Dirigido por Robin Campillo, o filme acompanha Enzo, um jovem de 16 anos de classe média alta que abandona a escola, torna-se pedreiro e observa a ascensão do irmão mais velho rumo à faculdade.

Numa mistura de desconstrução e rebeldia, Enzo decide seguir na construção civil mesmo com a resistência da família. Tentando entender o que se passa na cabeça do filho e interpretando como “uma fase”, seus pais veem o jovem esconder sua origem social para se sentir pertencente àquele ambiente.

A premissa é simples e direta: um jovem convicto de suas escolhas, mas que vive preso ao presente imediato, sem projetar o próprio futuro.

Uma jornada por respostas?

A história se passa em La Ciotat, uma comuna francesa na região de Provença-Alpes-Costa Azul. Cercado por casas de luxo, Enzo trabalha como pedreiro aprendiz e divide o dia a dia com refugiados e imigrantes de diferentes partes da Europa, como Vlad (Maksym Slivinskyi) e Miroslav (Vladyslav Holyk), vindos da Ucrânia.

Mesmo sendo repreendido pelo chefe e sofrendo leves provocações dos colegas, Enzo se sente mais à vontade no trabalho do que dentro de casa. Ali, ele é tratado como adulto, distante da constante lembrança de que abandonou a escola.

Enquanto isso, Marion (Élodie Bouchez) e Paolo (Pierfrancesco Favino), seus pais, se preocupam com a ausência de perspectiva do filho. Ao compará-lo com Victor (Nathan Japy), o irmão mais velho que traça um caminho acadêmico, enxergam em Enzo um jovem sem direção.

Paolo, no entanto, não percebe que o filho encontra reconhecimento ao lado de Vlad e Miroslav. Entre encontros, bebidas e tentativas de inseri-lo em um ambiente mais “adulto”, Enzo se sente respeitado.

Isso não impede os pais de tentarem colocá-lo “nos trilhos”, incentivando o retorno aos estudos, ainda que em outra escola. Para amigos e vizinhos, Enzo parece estar amadurecendo, recebendo elogios pelo físico moldado pelo trabalho. Ainda assim, para Marion e Paolo, ele continua sendo um filho que precisa de orientação.

Admiração ou paixão

Vlad convida Enzo para um trabalho no fim de semana, o que gera conflito familiar, já que havia uma viagem planejada. Enzo dorme na casa de Vlad e, durante a noite, ultrapassa um limite ao demonstrar desejo pelo amigo. Vlad recusa e pede que ele pare.

No dia seguinte, o clima entre os dois muda. Vlad deixa claro que não compartilha dos mesmos sentimentos, criando um distanciamento que afeta diretamente Enzo.

Ao voltar para casa, Enzo chega durante uma festa em comemoração à aprovação de Victor na faculdade. A tensão explode, culminando em um confronto com o pai. Em meio à confusão, Enzo afirma que Vlad seria seu namorado, algo que depois se revela como uma interpretação equivocada de seus próprios sentimentos. Marion tenta acolhê-lo.

De volta ao trabalho, Enzo descobre que Vlad e Miroslav estão deixando o emprego para lutar na Ucrânia. A relação entre eles se torna mais fria, ainda que Vlad tente manter alguma amizade.

Vale a pena?

Enzo constrói uma narrativa com forte potencial de identificação. O retrato do jovem que rejeita o caminho esperado pelos pais é clássico, mas funciona dentro da proposta.

A dinâmica com Vlad vai além da amizade. Existe ali uma busca por validação e pertencimento, especialmente por parte de Enzo, que vê no Vlad numa referência de maturidade. O conflito emocional, no entanto, aposta na ambiguidade entre admiração e desejo por parte do Enzo. Essa indefinição parece intencional, mas a falta de uma profundidade necessária, deixa a sensação de algo inacabado.

Já a decisão de Vlad de retornar à Ucrânia surge de forma abrupta. Considerando o discurso do personagem, a mudança enfraquece a construção dele como fosse uma fuga do próprio.

Eloy Pohu entrega um protagonista convincente, sustentando bem a confusão emocional e a tentativa de afirmar sua própria identidade fora da sombra dos pais.

Com ritmo mais contemplativo, o filme se apoia na observação e nos silêncios dos personagens. Em alguns momentos, isso reforça a proposta e em outros, reduz o impacto dramático.

No fim, Enzo funciona mais pela identificação da fase do protagonista e mostra um jovem em conflito com o mundo e consigo mesmo, lidando com escolhas impulsivas e sentimentos que ainda não compreende totalmente.

Sem respostas fáceis, o filme reforça uma ideia simples de que crescer nunca foi fácil.

Ficha Técnica

Nota: 4 (de 5)

Enzo (2025)

País: França
Ano: 2025
Duração: 102 minutos
Gênero: Drama
Classificação indicativa: 16 anos

Título original: Enzo

Direção: Robin Campillo
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, Gilles Marchand

Elenco:
Eloy Pohu
Pierfrancesco Favino
Élodie Bouchez

Distribuição: Mares Filmes

Agradecimentos a Mares Filmes pela produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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