Quando a Netflix expandiu oficialmente para mais de 190 países em 2016, muita gente enxergou aquilo apenas como o avanço definitivo do streaming. Dez anos depois, a empresa quer vender outra ideia: a de que virou também uma engrenagem econômica e cultural gigantesca espalhada pelo planeta.
A companhia lançou nesta semana o relatório “O Efeito Netflix”, um levantamento sobre o impacto econômico, social e cultural das produções da plataforma ao longo da última década. Segundo os dados divulgados pela empresa, a Netflix afirma ter contribuído com mais de US$ 325 bilhões para a economia global no período.
O número inclui investimentos em produções, geração de empregos, serviços locais e movimentação indireta causada pelas séries e filmes da plataforma.
E sim, isso também inclui turismo motivado por fandom. Porque aparentemente assistir série virou planejamento de viagem internacional.
Netflix transformou produções locais em estratégia global

A empresa destaca que o grande ponto de virada aconteceu justamente quando deixou de operar apenas como distribuidora de conteúdo americano e começou a investir pesadamente em produções locais.
A primeira série original produzida fora dos Estados Unidos foi Club de Cuervos, lançada em 2015. Hoje, a plataforma afirma produzir conteúdos em mais de 4.500 cidades e municípios espalhados por mais de 50 países.
Segundo a Netflix, foram mais de US$ 135 bilhões investidos em filmes e séries ao longo da década, além da criação de cerca de 425 mil empregos ligados diretamente às produções próprias.
Nos Estados Unidos, a empresa cita O Poder e a Lei como exemplo de impacto regional. As quatro temporadas movimentaram mais de US$ 425 milhões na economia da Califórnia e empregaram milhares de profissionais.
Já Stranger Things teria gerado mais de 8 mil empregos ao longo de suas temporadas.
Brasil aparece como peça importante do “Efeito Netflix”

O Brasil também ocupa espaço relevante dentro do relatório.
A vice-presidente de conteúdo da Netflix Brasil, Elisabetta Zenatti, destacou produções nacionais como exemplos de impacto econômico e cultural.
Segundo ela, séries e filmes como Senna ajudaram a ampliar o nível técnico da indústria audiovisual brasileira, especialmente em efeitos visuais.
Outras produções citadas incluem Ilhados com a Sogra, que teria impulsionado turismo, além de adaptações como O Filho de Mil Homens e Pssica, que registraram aumento nas vendas após ganharem adaptações.
A empresa também destacou O Agente Secreto como exemplo recente de projeção internacional da cultura brasileira.
Streaming virou motor cultural global
Talvez a parte mais interessante do relatório esteja menos nos bilhões e mais na forma como a Netflix tenta medir influência cultural.
A empresa aponta, por exemplo, que o lançamento de Guerreiras do K-Pop teria provocado aumento de 25% nas reservas de voos para a Coreia do Sul e crescimento de 22% no número de americanos aprendendo coreano no Duolingo.
A plataforma também afirma ter impulsionado vendas de livros, músicas antigas, fantasias, jogos de tabuleiro e até esportes considerados nichados.
Na prática, a Netflix tenta consolidar uma narrativa importante para o mercado atual: a de que deixou de ser apenas um serviço de streaming e virou um agente direto de comportamento cultural global.
E considerando o tamanho que suas produções alcançaram na última década, fica cada vez mais difícil separar entretenimento de influência econômica real.


