Poucos eventos conseguem reunir tradição, memória, gastronomia, cultura pop e diferentes gerações de forma tão natural quanto o Festival do Japão. Aberta nesta sexta-feira (10), no São Paulo Expo, a 27ª edição do evento voltou a transformar a capital paulista em um grande ponto de encontro entre Brasil e Japão, reafirmando sua posição como a maior celebração da cultura japonesa realizada fora do território japonês.
Para quem visita o Festival pela primeira vez, a impressão costuma ser imediata: corredores movimentados, apresentações acontecendo simultaneamente, aromas vindos da praça de alimentação e milhares de pessoas dividindo o mesmo espaço. Mas bastam alguns minutos caminhando pelos pavilhões para perceber que o evento representa muito mais do que uma programação cultural.
Ao longo de quase três décadas, o Festival consolidou-se como um dos principais instrumentos de preservação da história da imigração japonesa no Brasil. Mais do que apresentar tradições ao público, ele ajuda a manter vivas as associações das 47 províncias japonesas, responsáveis por preservar costumes, culinária, manifestações artísticas e parte importante da identidade da comunidade nikkei.
Um patrimônio construído pela comunidade

Criado em 1998 pelo Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), o Festival do Japão nasceu com a missão de aproximar os brasileiros da cultura japonesa e fortalecer o trabalho desenvolvido pelas associações de províncias espalhadas pelo país.
Desde então, o evento cresceu junto com a própria comunidade. Depois das primeiras edições na Marquise do Ibirapuera e na Assembleia Legislativa de São Paulo, encontrou no São Paulo Expo o espaço ideal para reunir milhares de visitantes durante três dias de programação.
Essa origem continua fazendo toda a diferença.
Ao contrário de muitos eventos culturais, o Festival é construído por centenas de voluntários. Cada prato servido, oficina realizada ou apresentação artística ajuda diretamente as associações que trabalham durante todo o ano para preservar tradições trazidas pelos primeiros imigrantes japoneses.
Ao mesmo tempo, preservar esse legado nunca impediu o Festival de evoluir. As ativações de empresas, os espaços dedicados à cultura pop e as novas experiências mostram que tradição e inovação conseguem caminhar lado a lado.
Gastronomia continua sendo o coração do Festival

Se existe um ponto de encontro comum para praticamente todos os visitantes, ele continua sendo a área gastronômica.
Logo nas primeiras horas de funcionamento, diversas filas já se formavam diante dos estandes das associações de províncias. Para muitos frequentadores, experimentar pratos diferentes é um ritual que se repete ano após ano.
Em 2026, o Festival reúne 44 das 47 províncias japonesas, cada uma representada por receitas preparadas pelas próprias associações. Diferentemente de festivais gastronômicos tradicionais, os pratos não são produzidos por restaurantes comerciais, mas por voluntários que preservam receitas transmitidas entre gerações.
Entre os destaques estão opções como o Karê Pan de Saitama, o Katsuo no Tataki de Kochi, o Okonomiyaki de Wakayama e a tradicional versão de Hiroshima preparada com macarrão. A diversidade de sabores mostra como a culinária japonesa muda de uma região para outra e ajuda a explicar por que a gastronomia continua sendo uma das atrações mais disputadas do Festival.
Mais do que alimentar milhares de visitantes, cada refeição também ajuda a manter vivas as atividades das associações de províncias, reforçando um dos principais objetivos do evento desde sua criação.
Entre tradição e cultura pop

Ao caminhar pelos pavilhões, fica evidente que o Festival consegue dialogar com públicos muito diferentes.
Enquanto o Palco Principal reúne apresentações musicais, grupos de taiko, danças tradicionais e artistas convidados, oficinas de origami, shodô, sumi-ê e outras manifestações culturais aproximam visitantes de técnicas preservadas há gerações.
Ao mesmo tempo, a cultura pop japonesa segue ampliando seu espaço.
O AkibaSpace voltou a reunir fãs de animes, mangás, games e cosplay, trazendo como destaque a exposição oficial pelos 40 anos de Cavaleiros do Zodíaco, além da participação da cantora Yumi Matsuzawa. Nesta edição, o espaço também ampliou sua programação de palestras e encontros, aproximando ainda mais o público dos convidados.
Ao lado, o FJTAON manteve sua proposta de reunir artistas independentes, influenciadores, ativações interativas e o tradicional Artist Alley. O karaokê, movimentado durante boa parte da sexta-feira, acabou se tornando um dos pontos de encontro mais descontraídos do evento.
Essa convivência entre manifestações tradicionais e cultura pop continua sendo uma das maiores características do Festival. Não existe um roteiro obrigatório: cada visitante encontra um caminho próprio para viver a experiência.
Um Festival para todas as gerações
O tema desta edição, “Kizuna – Laços que Unem”, aparece muito além da identidade visual.
Famílias percorrem os corredores juntas, crianças descobrem pela primeira vez aspectos da cultura japonesa, jovens circulam entre apresentações e espaços dedicados aos animes, enquanto idosos reencontram tradições que fazem parte de sua própria história.
Esse espírito também aparece em iniciativas como o Espaço Kizuna, dedicado à pesquisa sobre ancestralidade e imigração japonesa, além de áreas voltadas às crianças, ao envelhecimento ativo e às atividades inclusivas, mostrando que o Festival continua sendo pensado para públicos de todas as idades.
Mesmo em uma sexta-feira, favorecida pela emenda do feriado em São Paulo, o evento já recebeu visitantes de diferentes regiões do país e iniciou a recepção das caravanas que tradicionalmente movimentam o Festival durante o fim de semana.
Um primeiro dia que reafirma a essência do Festival

Mais do que abrir oficialmente a programação de 2026, o primeiro dia mostrou que o Festival do Japão continua cumprindo a missão que motivou sua criação há quase três décadas.
Entre pratos preparados pelas associações de províncias, apresentações culturais, experiências voltadas ao público jovem e espaços dedicados à preservação da memória da imigração japonesa, o evento demonstra que tradição e renovação podem caminhar juntas.
Se a programação está apenas começando, a abertura já deixou claro por que o Festival do Japão continua sendo a maior celebração da cultura japonesa fora do Japão. Mais do que um encontro de admiradores da cultura oriental, o evento reafirma seu papel como uma ponte entre Brasil e Japão, preservando um legado construído por gerações enquanto cria novas conexões com um público cada vez mais diverso.

