Viver para sempre parece uma ideia tentadora. Mas e se, depois de décadas ou séculos, a eternidade deixasse de ser um privilégio e se transformasse em uma obrigação?
É a partir dessa possibilidade que Cartório das Almas, ficção científica brasileira dirigida por Leo Bello, constrói sua história. O longa estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 29 de outubro, depois de conquistar três prêmios no 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Na trama, a humanidade encontrou uma maneira de interromper o envelhecimento. As pessoas podem continuar vivendo indefinidamente, mas nem todas desejam permanecer nesse mundo.
Para aqueles que decidem abrir mão da longevidade, existe um procedimento oficial. A decisão precisa passar por um cartório.
Quando a imortalidade se transforma em burocracia
A protagonista é Laura, interpretada por Gabriela Correa, uma mulher de 126 anos que começa a trabalhar no Cartório das Almas.
Sua função é atender pessoas que decidiram encerrar a própria existência e registrar os motivos que as levaram a essa escolha.
O trabalho exige que Laura entre em contato diariamente com histórias de indivíduos que, apesar de terem a possibilidade de viver indefinidamente, não encontram mais razões para continuar.
Existe, porém, uma contradição em sua própria situação: por determinação contratual, ela não tem o direito de interromper a própria vida.
Inicialmente, Laura realiza suas tarefas sem questionar o funcionamento daquela sociedade. Aos poucos, entretanto, os relatos que escuta começam a modificar sua percepção sobre a existência.
A premissa aproxima Cartório das Almas de uma tradição da ficção científica que utiliza sociedades imaginárias para discutir questões humanas.
Em vez de concentrar sua narrativa em viagens espaciais ou grandes avanços tecnológicos, o filme parte de uma pergunta filosófica: qual seria o valor da vida se ela não tivesse um fim?
A burocracia, elemento tão presente no cotidiano brasileiro, torna-se parte central dessa reflexão.
Brasília se transforma em cenário de um futuro distópico
Embora a história aconteça em uma sociedade futurista, Cartório das Almas encontrou boa parte de sua identidade visual na arquitetura de Brasília.
O filme foi rodado na capital federal, aproveitando construções e espaços urbanos associados ao modernismo brasileiro.
Para Leo Bello, a cidade oferecia uma maneira de construir um universo de ficção científica sem depender exclusivamente de cenários artificiais.
A arquitetura de Oscar Niemeyer, marcada por formas geométricas e espaços monumentais, ajudou a estabelecer a atmosfera de um futuro que parece familiar e estranho ao mesmo tempo.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, o diretor comentou a relação entre a cidade e a proposta visual do longa:
“Ela carrega uma ideia de futuro que ficou no passado, um futuro que já não cabe mais.”
Essa característica permite que o filme explore uma contradição interessante: uma sociedade que superou o envelhecimento humano é apresentada em espaços concebidos a partir de uma visão de futuro desenvolvida décadas atrás.
A escolha também aproxima a ficção científica de elementos reconhecíveis da realidade brasileira.
Cartório das Almas conquistou três prêmios no Festival de Brasília
Antes de chegar ao circuito comercial, Cartório das Almas passou pelo 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizado em 2023.
Na ocasião, o longa conquistou o Candango de Melhor Longa-Metragem pelo Júri Popular.
A produção também recebeu os prêmios de Melhor Direção de Arte, pelo trabalho de Maíra Carvalho, e Melhor Edição de Som, concedido a Olivia Hernandez.
As premiações destacaram aspectos importantes da construção do universo apresentado pelo filme, especialmente sua ambientação e o trabalho sonoro.
Além de dirigir, Leo Bello assina o roteiro.
O cineasta também escreveu e dirigiu O Espaço Infinito, outro longa autoral distribuído no Brasil pela Pandora Filmes.
Sua trajetória inclui trabalhos para televisão, documentários e produções audiovisuais desenvolvidas em Brasília.
Quem está no elenco de Cartório das Almas
Além de Gabriela Correa no papel de Laura, o elenco reúne Wellington Abreu, Gabrielle Lopes, Deni Moreira, Paula Passos e Chico Sant’Anna.
A produção é assinada pela Machado Filmes e pela Lumiô Filmes, com fotografia de Pedro Maffei e direção de arte de Maíra Carvalho.
Com 77 minutos de duração, o longa utiliza elementos do suspense e da ficção científica para abordar o envelhecimento, a liberdade individual e as consequências de uma sociedade que passou a tratar a morte como uma escolha administrativa.
Onde assistir a Cartório das Almas

Distribuído pela Pandora Filmes, Cartório das Almas estreia em 29 de outubro de 2026 em dez cidades brasileiras.
As cidades anunciadas são:
- Ananindeua (PA)
- Arapiraca (AL)
- Balneário Camboriú (SC)
- Brasília (DF)
- Florianópolis (SC)
- Maceió (AL)
- Paulista (PE)
- Porto Alegre (RS)
- Rio de Janeiro (RJ)
- São Paulo (SP)
A programação e os horários das sessões devem ser consultados diretamente nos cinemas de cada cidade.
Em um gênero frequentemente associado a grandes produções internacionais, Cartório das Almas encontra na arquitetura brasileira e em uma situação aparentemente banal, o atendimento em um cartório, os elementos para imaginar um futuro inquietante.
Afinal, se a ciência conseguisse eliminar o envelhecimento, talvez a pergunta mais difícil não fosse como viver para sempre, mas o que fazer quando a eternidade deixasse de fazer sentido.


