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Crítica | Com gostinho de nostalgia, “O Último Episódio” te leva à magia dos anos 90

Sabe aquela sensação nostálgica de ligar a televisão quando criança e ficar teorizando sobre os finais de desenhos que nunca passaram na TV? Caverna do Dragão, ao lado de He-Man, She-Ra, Comandos em Ação e Transformers, era um daqueles desenhos “eternos” na televisão brasileira.

E é justamente esse o ponto de partida em O Último Episódio, que tem como base Caverna do Dragão. Passando-se em 1991, conhecemos Erik (Matheus Sampaio), um garoto que tenta conquistar uma colega de escola dizendo que tem em casa o episódio final da animação.

Com a história ganhando contornos de Os Goonies e Conta Comigo, clássicos dos anos 80, O Último Episódio acompanha um garoto que acredita piamente que conseguirá produzir esse episódio ao lado de seus inseparáveis amigos Cassinho (Daniel Victor) e Cristiane/Cristão (Tatiana Costa).

É aqui que a história começa, trocando os cenários gringos e abraçando a realidade brasileira, ao se passar no bairro Laguna, na periferia de Contagem, em Minas Gerais. O resultado é uma trama que gera identificação e transporta quem cresceu nos anos 90 de volta àquela época mágica.

A história

O Último Episódio começa em Contagem, num colégio onde os jovens comentam sobre os desenhos infantis da época. Caverna do Dragão era uma dessas sensações, em que adolescentes eram transportados para outro mundo e enfrentavam missões do Mestre dos Magos enquanto tentavam voltar para casa.

Durante uma conversa sobre o desenho no banheiro entre garotas, Erik, um jovem de 13 anos, acaba ouvindo o assunto e tenta se aproximar da menina no ginásio da escola. Atrapalhado e tímido, inventa que tem o episódio final em casa, importado por um tio. A garota se anima, e ele, tentando manter a mentira, diz que não pode mostrar o vídeo por causa de uma reforma em casa, mas acredita que ainda pode filmar o tal final.

Pegando a antiga câmera do pai e contando com a ajuda dos amigos, Erik decide que vai conseguir enganar a garota e ganhar um beijo dela. Os jovens dos anos 90 tinham essas ideias de acreditar no impossível, tudo isso enquanto se aproximava uma apresentação musical que o trio vinha ensaiando na escola.

Professor Juarez

Trazendo de volta a magia de viver nos anos 90, O Último Episódio apresenta um elenco adulto que, mesmo sem saber das intenções de Erik, ajuda os garotos. É o caso do professor Juarez (Gabriel Martins), que tenta constantemente trazê-los de volta à realidade.

Por mais boa vontade que tenha, Erik não deixa de frequentar a diretoria, o que gera embates com a diretora Simone (Babí Amaral), sempre tentando evitar que sua mãe seja chamada à escola.

Usando a oficina do pai de Cassinho, o grupo começa a filmar o episódio, mas o processo é cheio de trapalhadas.

Além de tentar conquistar a garota dos sonhos, Erik começa a se questionar por que é chamado de “filho do doido”. Com o pai falecido quando era ainda criança, o garoto é criado apenas pela mãe, que trabalha em um supermercado afastado e enfrenta seus próprios dilemas, como a dificuldade de encontrar um fiador e a necessidade de mudar de casa. São esses problemas que vão invadindo a realidade de Erik e dando novas camadas à história.

Será que, em meio a tudo isso, Erik vai conseguir terminar O Último Episódio e conquistar a garota dos seus sonhos?

Opinião

Erik com a mãe

Dirigido por Maurílio Martins, que também assina o roteiro ao lado de Thiago Macêdo Correia, O Último Episódio traduz com fidelidade a realidade brasileira dos anos 90. A nostalgia funciona de maneira natural e, para quem cresceu naquela década, é impossível não se reconhecer em diversos momentos.

Seja com Cassinho jogando Street Fighter II no fliperama, seja pelas músicas Doce Mel, eternizada por Xuxa, e Qualquer Jeito, da cantora Kátia, ambas em novas versões para o filme, a trilha sonora reforça o clima da época. Nesse sentido, O Último Episódio acerta como O Melhor Amigo, de Allan Deberton, ao resgatar musicalmente a memória afetiva de uma geração.

Pequenas cenas, como a da mãe de Erik trocando os preços no mercado, capturam de forma sutil o contexto econômico da época, marcada pela inflação alta e pela instabilidade diária dos preços.

É essa soma de elementos que torna o mundo de O Último Episódio tão palpável, indo além da “produção do episódio” e explorando a jornada de amadurecimento de um garoto diante de problemas adultos batendo na porta.

O arco do pai de Erik é tratado com delicadeza e conta com atuações intensas, especialmente nas cenas com a mãe, mostrando como era difícil abordar temas sensíveis, como mortes não naturais, naquela época, além dos desafios de ser mãe solo.

Sim, em algum momento o filme entrega o “último episódio”, mas não da forma que imaginamos. É aí que está a cereja do bolo: uma narrativa que cresce a cada camada, até conquistar o público e deixar Caverna do Dragão em segundo plano. E parte deste mérito está na amizade do Erik com Cassinho e Cristiane que levam a história, mostrando uma amizade ao bom estilo ‘Goonies’.

Por fim, com boas atuações e uma recriação cuidadosa dos anos 90, O Último Episódio traz DNA brasileiro a um tipo de história que muitos de nós crescemos vendo na TV. Uma bela surpresa nos cinemas e, sem dúvida, uma porta aberta para mais produções do gênero.

Nota: 4 (de 5)

O Último Episódio

Direção: Maurílio Martins
Roteiro: Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia
Produção: Filmes de Plástico
Coprodução: Canal Brasil, Cine Film
Distribuição: Malute Filmes e Embaúba Filmes
Ano: 2025 | País: Brasil
Duração: 112 min | Classificação: 12 anos

Elenco: Matheus Sampaio, Daniel Victor, Tatiana Costa, Camila Morena, Rejane Faria, Maria Leite, Gabriel Martins, André Novais Oliveira, Babí Amaral, Daniel Jaber, Leonardo De Jesus, Robert Frank, Eid Ribeiro, Lara Silva, Lois Martins, Leo Pyrata e Matheus Ferreira.

Agradecemos ao Filmes de Plástico, Malute Filmes, Embaúba Filmes e a Sinny pelo convite para produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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