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Crítica | Não existe culpa em “A Última Saída”

O cinema sul-coreano virou referência mundial nos últimos anos, e muito disso passa pelo nome de Park Chan-wook. Antes de K-pop dominar o planeta e K-dramas virarem febre global, ele já estava lá, entregando histórias desconfortáveis, cheias de personagens moralmente tortos. A Última Saída volta exatamente pra esse lugar.

Livremente inspirado no romance The Ax, de Donald Westlake, o filme traz Lee Byung-hun, que muita gente reconhece como o líder de Round 6 ou o vilão Gwi-Ma de Guerreiras do K-Pop. Aqui, ele é Yoo Man-su, um homem que fez tudo certo. Trabalho estável, família estruturada, casa dos sonhos. O problema é que o mundo não liga muito pra isso.

A vida perfeita (até deixar de ser)

Yoo Man-su tem a vida que qualquer pessoa gostaria de ter. Casado com Lee Mi-ri (Son Ye-jin), dois filhos, mais de 20 anos de carreira na Solar Paper, uma empresa sólida no mercado sul-coreano. Até que um dia tudo desanda.

A empresa é comprada por um grupo americano, rola protesto interno, corte de funcionários, e Man-su acaba demitido. Ele promete pra família que logo volta ao mercado. Três meses. Só que três meses viram treze.

E é aí que a realidade começa a bater. O padrão de vida cai, as aulas de tênis vão embora, os filhos perdem as aulas particulares, os cachorros precisam ser doados. Até a casa, o maior orgulho de Man-su, entra na mira da venda. E ele simplesmente não aceita em hipótese alguma vender ela. A casa não é só um imóvel, mas a memória de infância, sendo a conquista e é prova de que ele chegou lá. Abrir mão disso seria admitir que perdeu. E isso, pra ele, não é uma opção.

Pensar como empresa

Sem espaço no mercado e vendo o setor de papel encolher, Man-su muda a forma de pensar. Em vez de se ver como candidato, ele começa a se colocar no lugar de quem contrata. Quem está no mesmo nível que ele? Quem disputa a mesma vaga? Quem precisa sair do caminho? A resposta soa cruel, mas é direta… Eliminar seus concorrentes.

Não é um surto, e nem é loucura repentina. É raciocínio frio. É lógica corporativa levada ao extremo. Se o sistema te descartou, talvez o erro seja jogar limpo demais.

O primeiro alvo surge quase por acaso: Goo Beom-mo (Lee Sung-min), também desempregado, também desesperado, também tentando sobreviver. A diferença é que Man-su decidiu não aceitar o mesmo destino.

Uma tragédia anunciada

Mesmo depois de tomar essa decisão, Man-su ainda tropeça. Ele hesita, erra, se culpa. Aos poucos, vai deixando essas travas pra trás. Cada passo o afasta mais de quem ele era e o torna mais perto de quem ele precisa ser para vencer.

O peso da situação cresce quando Lee Mi-ri percebe que algo está errado. Ela não é ingênua. Sua reação lembra muito conflitos já vistos em séries como O Mundo dos Casados, onde o casamento vira um campo de negociação silenciosa.

Aqui, ninguém é totalmente inocente.

Opinião

Em um primeiro momento, A Última Saída pode até lembrar Parasita, pela discussão de classe. Mas logo o filme deixa claro que está mais interessado no indivíduo do que no sistema.

A trajetória de Man-su se aproxima mais de Ponto Final – Match Point: não importa se é certo ou errado, importa se funciona. O sucesso não mede consequências.

Menos violento que outros filmes associados ao nome de Park Chan-wook, A Última Saída aposta mais no desconforto psicológico e na pergunta que fica martelando o tempo todo: até onde você iria pra não perder tudo?

Indicado pelo governo sul-coreano ao Oscar 2026, o filme entrega exatamente o que se espera desse tipo de obra. Um protagonista impossível de defender, decisões que não pedem perdão e uma sensação constante de que ninguém sai limpo dessa história.

E talvez esse seja justamente o ponto.

Ficha técnica

Nota: 4,5 (de 5)

A ÚNICA SAÍDA

Coreia do Sul | 2025 | 139 min. | Comédia – Drama | 16 anos

Título Original: The Other Choice | Eojjeolsuga eobsda

Direção: Park Chan-wook

Roteiro: Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi, Jahye Lee

Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won, Oh Dal-su

Distribuição: Mubi | Mares Filmes

Agradecimentos a Mubi e Mares Filmes pelo convite para produzir este conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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