Marty Supreme não é uma cinebiografia tradicional. Se apoia no exagero, no caos e no impulso. Inspirado livremente em Marty Reisman, o novo filme de Josh Safdie usa o esporte apenas como ponto de partida para construir um anti-herói difícil de gostar e ainda mais difícil de ignorar.
Classificado como comédia esportiva, o longa vai muito além de qualquer rótulo. Entre ambição, ego e decisões duvidosas, acompanhamos a saga de um personagem que parece sempre correr atrás da próxima vitória, seja na mesa de pingue-pongue ou na própria vida.

Com Timothée Chalamet no papel principal, chega a ser impossível não ter esbarrado com o filme nos últimos meses. Premiado por onde passa, aqui o ator interpreta Marty Mauser, um atleta azarão com uma vida pra lá de conturbada. Morando com a mãe, trabalhando para o tio para levantar dinheiro para um campeonato e engravidando a vizinha casada, esses são apenas alguns dos elementos que definem sua corrida desesperada pelo sucesso.
Ao apresentar um elenco repleto de nomes conhecidos, Marty Supreme ainda conta com Gwyneth Paltrow, Kevin O’Leary e Fran Drescher, conhecida no Brasil principalmente por The Nanny.
Com mais de duas horas de duração e sempre em modo turbo, o filme traduz em sua narrativa a mesma velocidade com que uma bolinha cruza a mesa de pingue-pongue. É nesse ritmo acelerado, quase sufocante, que conhecemos a saga de Marty.
Um protagonista pra lá de excêntrico

De volta aos anos 1950, em um mundo ainda marcado pelo pós-guerra, conhecemos Marty Mauser, um jovem que trabalha na loja de sapatos do tio, mas que claramente não está satisfeito com sua rotina. Em uma das primeiras sequências, uma moça estranha pede para procurar um par de sapatos no estoque, pretexto suficiente para que os dois acabem transando ali mesmo.
Obcecado pelo campeonato, Marty descobre que o tio viajou e o deixou sem pagamento. Isso, no entanto, não o impede de pegar o que lhe deve. Ele rouba 700 dólares e parte para Londres.
É no British Open que Marty demonstra desprezo pelas instalações oferecidas aos atletas, hospedados no Hotel Ritz. Lá, ele conhece a ex-atriz Kay Stone, interpretada por Gwyneth Paltrow. Mesmo ficando claro que ela é casada com o poderoso dono das indústrias Milton Rockwell, nada disso intimida Marty, que tenta seduzi-la sem qualquer pudor.

Mesmo levando Kay para assistir à final do torneio, isso não impede Marty de perder para Koto Endo, um jogador japonês que utiliza uma raquete pouco convencional e que se torna alvo de críticas, inclusive do próprio protagonista.
A derrota obriga Marty a encarar suas limitações, o que o leva a aceitar um convite para viajar como atração cômica ao lado dos Harlem Globetrotters, aqueles mesmos que muita gente acima dos 40 anos lembra das animações de Scooby-Doo.
De volta aos Estados Unidos, Marty acaba preso por ter roubado o tio e descobre que Rachel Mizler, interpretada por Odessa A’zion, não era apenas um caso antigo, mas está grávida. O filho não é do marido dela, e sim dele. Paralelamente, ele reencontra sua mãe, Rebecca Mauser, vivida por Fran Drescher, que tenta chamar sua atenção a qualquer custo.
O tempo passou enquanto Marty estava fora, e agora tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Ele se vê obrigado a se desdobrar para lidar com um caos que só cresce. E, sendo bem franco, isso ainda está longe de ser o pior.
Com a intenção de viajar ao Japão para um novo campeonato e um aguardado reencontro com Koto Endo, Marty encara novos obstáculos. Rachel, Kay Stone, o marido dela e uma série de novos personagens surgem pelo caminho, adiando constantemente essa viagem e empurrando o protagonista para situações cada vez mais improváveis.
Opinião

Desde Prenda-me se for Capaz, não via uma história em que tanta coisa acontece ao mesmo tempo. Marty Supreme vai além, desenvolvendo múltiplos arcos simultaneamente e emaranhando seu protagonista em complicações cada vez mais difíceis de resolver.
Timothée Chalamet entrega um personagem egoísta, movido apenas por suas próprias vitórias. Seja no esporte ou na vida pessoal, Marty é excessivamente confiante, a ponto de nos perguntarmos de onde vem tanto otimismo. Isso se reflete tanto nas partidas de pingue-pongue quanto em seus relacionamentos.
Gwyneth Paltrow interpreta uma atriz distante de seus dias de glória. Kay Stone abriu mão do próprio brilho em nome do casamento, mas agora tenta retornar aos palcos usando o império do marido como trampolim. A diferença de idade entre ela e Marty se transforma em um elemento de sedução que funciona muito bem em cena.
Odessa A’zion também se destaca como Rachel Mizler, uma mulher que acaba comprando parte do sonho de Marty e se torna sua parceira involuntária nessa jornada caótica. Já Fran Drescher entrega uma mãe carente e manipuladora. A relação entre os dois ajuda a explicar muitos dos trejeitos e atitudes do protagonista.
Viajando pelos Estados Unidos, Inglaterra, Japão e outros cenários, Marty Supreme apresenta personagens fascinantes e situações cada vez mais absurdas, sempre dobrando a aposta em nome de um sonho que pode cobrar um preço alto.
Sem entrar em spoilers, o filme entrega camadas, reviravoltas e surpresas que vão muito além do esporte. Não é uma estreia que merece atenção apenas pelos prêmios que vem acumulando, mas porque aposta em um protagonista imperfeito, incômodo e hipnótico. Daqueles que a gente sabe que não deveria torcer, mas torce mesmo assim.
Ficha Técnica

Nota: 5 (de 5)
Marty Supreme
Direção: Josh Safdie
Roteiro: Ronald Bronstein, Josh Safdie
Produção: Josh Safdie, Ronald Bronstein, Eli Bush, Antonio Katagas, Timothée Chalamet
Elenco:
Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Kevin O’Leary, Tyler Okonma, Abel Ferrara, Fran Drescher
Direção de fotografia: Darius Khondji
Montagem: Ronald Bronstein, Josh Safdie
Trilha sonora: Daniel Lopatin
Produção: Central Pictures
Distribuição internacional: A24
Distribuição no Brasil: Diamond Filmes
Estreia no Brasil: 22 de janeiro de 2026
Duração: 150 minutos
País: Estados Unidos
Idioma: Inglês
Agradecimentos a Diamond Filmes pelo convite para produção deste conteúdo.


