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Crítica | Simples e acolhedor, Mirai mostra a grandeza das relações no Japão

Agora em março, o serviço Filmelier Plus trouxe quatro produções do diretor japonês Mamoru Hosoda. Considerado por muitos um sucessor espiritual do Studio Ghibli na forma de contar histórias, Hosoda, junto ao Studio Chizu, apresenta uma animação que envolve viagens no tempo dentro de um ambiente cotidiano: o de uma família japonesa.

Trabalhando emoções em uma jornada de descobertas, conhecemos uma família que poderia ser a de qualquer vizinho. Kun, de 4 anos, e sua irmã recém-nascida, Mirai, enfrentam os desafios da infância enquanto são criados pelo pai, já que a mãe está retornando ao mercado de trabalho.

Quem já conhece os trabalhos do diretor reconhece o carisma de seus personagens, que brilham em cena enquanto a narrativa se constrói de forma mais sutil ao fundo. Aqui não é diferente.

Uma história sobre família

A trama não perde tempo em se estabelecer, mostrando o ciúme de Kun pela chegada da irmã, enquanto os pais se desdobram para cuidar da casa, dos filhos e do cachorro, em meio a conversas sobre família e legado.

Sem compreender o próprio sentimento, Kun reage à perda de atenção com irritação. Ele tenta interagir com a irmã, mas é constantemente orientado a manter distância, já que ela ainda é muito pequena pra brincadeiras tão violentas.

No jardim de casa, Kun encontra uma versão humana de seu cachorro, Yukko, que relembra como também perdeu espaço na família quando o menino nasceu. A partir daí, misturando imaginação e frustração, Kun passa a agir como o animal, criando confusão pela casa.

Pouco depois, ele conhece uma misteriosa adolescente que se apresenta como sua irmã vinda do futuro. Mesmo sem entender completamente a situação, os dois desenvolvem uma relação curiosa, enquanto ela tenta compreender o por quê Kun a rejeita tanto.

Kun então percebe que o jardim pode levá-lo a encontros com pessoas do passado ou do futuro. Em uma dessas experiências, ao cair na água, ele desperta em um Japão diferente e conhece uma garota que tenta ensaiar o choro para escrever uma carta à avó pedindo um gato. Sem perceber, ele está com sua própria mãe na infância. Os dois causam confusão na casa até que Kun retorna ao presente.

A confirmação vem depois, quando a mãe menciona o desejo que tinha, quando criança, de ter um gato. Sendo apenas uma das dicas que a animação apresenta, confirmando quem são os personagens pelo tempo.

Em outra viagem, Kun vai ainda mais longe no tempo e conhece seu bisavô, um homem que mancava após ter seu barco atacado durante a guerra. Em um encontro cheio de simbolismo, ele cria um vínculo com bisavô que havia falecido recentemente.

Mas quais são as consequências dessas viagens? Mirai, vinda do futuro, continua tentando entender o comportamento do irmão. Será que ela conseguirá mudar a forma como ele a enxerga?

O significado está nas pequenas coisas

A narrativa acompanha o cotidiano de Kun entre essas experiências, mostrando seu crescimento enquanto aprende a andar de bicicleta sem rodinhas e tenta se relacionar com outras crianças.

Hosoda equilibra bem esses dois mundos. As viagens no tempo funcionam como extensão emocional do protagonista, ajudando-o a entender seu papel como irmão mais velho e a enxergar a família de forma menos egoísta.

O filme acerta ao construir esse amadurecimento de forma gradual. Kun, mesmo muito jovem, começa a perceber que sua visão não é única, tornando-se menos mimado e mais aberto à convivência com a irmã.

Por outro lado, a escolha de manter tudo sob o ponto de vista dele pode tornar a narrativa repetitiva em alguns momentos. Seu temperamento difícil é parte essencial da proposta, mas pode afastar parte do público.

Vale a pena?

Com uma história simples e personagens cativantes, Mirai entrega exatamente o que se espera de uma grande animação japonesa. A comparação com o Studio Ghibli faz sentido, especialmente pela sensibilidade na forma de abordar relações familiares.

Mesmo com Kun sendo um protagonista desafiador, os personagens ao seu redor adicionam camadas e carisma suficientes para sustentar a narrativa.

A Mirai do futuro é um dos grandes destaques. Além de funcionar como elo narrativo, ela ajuda a dar sentido às viagens no tempo, especialmente quando apresenta a árvore genealógica da família, conectando eventos que antes estavam apenas sugeridos em segundo plano. Por isso, é um filme que exige atenção aos detalhes.

Vale a curiosidade que o título original, Mirai no Mirai, pode ser traduzido como “Mirai do Futuro”. A adaptação internacional optou por simplificar o nome sem o trocadilho, o que altera o “spoiler” do título e a percepção da obra.

O lançamento conta com dublagem brasileira inédita produzida pela Cloudubbing, com Miguel Carmo como Kun e Tininha Godoy como Mirai, distribuída pela Synapse Distribution.

No Japão, Mirai contou com um elenco de peso. O pai da família foi interpretado por Gen Hoshino, cantor e ator bastante popular por lá, enquanto a mãe ganhou voz da atriz Kumiko Asō, conhecida por diversos trabalhos no cinema e na televisão.

O avô foi interpretado por Kōji Yakusho, nome reconhecido internacionalmente por filmes como Dias Perfeitos, enquanto o bisavô teve a voz de Masaharu Fukuyama, um dos artistas mais populares do J-pop.

Com um elenco desse nível, fica mais fácil entender o impacto de Mirai no Japão. A animação também ganhou destaque internacional ao ser indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro em 2019, tornando-se a primeira produção japonesa fora do Studio Ghibli a alcançar esse reconhecimento, além de ser a primeira animação japonesa a estrear no Festival de Cannes.

Mesmo que pareça simples à primeira vista, o filme conquista aos poucos, com uma narrativa sensível, cheia de pequenos detalhes e personagens que convidam o espectador a conhecê-los melhor. Seja dublado ou legendado, é uma experiência que tende a aproximar o público da filmografia de Mamoru Hosoda.

Ficha técnica

Nota: 4,5 (de 5)

Mirai

Título original: Mirai no Mirai (未来のミライ)

Direção e roteiro: Mamoru Hosoda

Elenco: Moka Kamishiraishi, Haru Kuroki, Gen Hoshino, Kumiko Asō, Kōji Yakusho, Masaharu Fukuyama

Trilha sonora: Masakatsu Takagi

Estúdio: Studio Chizu

Distribuição: Toho

Estreia: 2018 (Cannes e Japão)

Duração: 98 min

País: Japão

Bilheteria: US$ 30,4 milhões

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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