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Crítica | Quando o protagonismo não é só beleza em “Parthenope – Os Amores de Nápoles”

Filme do diretor Paolo Sorrentino estreia no streaming com a chegada no Filmelier+

O cinema italiano nos traz boas surpresas onde menos esperamos e aqui em “Parthenope – Os Amores de Nápoles”, novo filme do diretor e roteirista Paolo Sorrentino, temos mais uma delas.

Com Celeste Dalla Porta no papel da misteriosa e belíssima Parthenope, acompanhamos o nascimento e a velhice desta protagonista que estava à frente do seu tempo e que não apenas exalta as belezas de Nápoles, mas também se transforma na própria personificação da cidade.

Aqui a trama começa lá em 1950, quando acompanhamos o nascimento da própria Parthenope, integrante da tradicional família Di Sangro. Criada com luxo e cercada de privilégios, ela cresce ao lado do irmão Raimondo e de Sandrino, filho da governanta da família.

Os anos passam e o trio criado nas praias desenvolve uma relação de amizade e companheirismo que rapidamente ultrapassa o convencional. Raimondo cresce preso a uma paixão silenciosa pela irmã, enquanto Sandrino transforma admiração em obsessão. E é justamente essa dinâmica desconfortável que torna o trio tão peculiar.

Já nos anos 1970, os três entram na vida adulta tentando encontrar seus próprios caminhos. Durante uma viagem para a ilha de Capri, a beleza de Parthenope chama atenção de diferentes homens, mas o que realmente desperta seu interesse nunca foi apenas aparência. A protagonista demonstra fascínio por homens intelectualmente provocativos, especialmente figuras mais velhas e experientes.

Set of a new movie by Paolo Sorrentino.
In the picture Celeste Dalla Porta and Gary Oldman.
Photo by Gianni Fiorito

É aqui que surge John Cheever, escritor admirado por Parthenope e interpretado por Gary Oldman. Mesmo discreto na narrativa, o personagem funciona quase como um símbolo do tipo de fascínio intelectual que move a protagonista durante toda sua jornada.

Enquanto isso, Raimondo percebe cada vez mais sua incapacidade de construir relações afetivas com outras mulheres, tornando inevitável o confronto com os sentimentos que guarda pela irmã. Já Sandrino finalmente consegue se aproximar de Parthenope, criando um desequilíbrio emocional que culmina na tragédia envolvendo Raimondo.

De volta para casa e mergulhada no luto, Parthenope passa a carregar a culpa pela morte do irmão, especialmente diante dos pais que sempre enxergaram Raimondo como alguém frágil. E é justamente aqui que o filme realmente começa.

“Parthenope – Os Amores de Nápoles” abandona a ideia de um romance convencional para acompanhar uma mulher tentando entender a si mesma enquanto atravessa diferentes fases da vida. Ao ingressar na faculdade de antropologia, ela encontra no professor Marotta uma figura que reconhece sua inteligência e incentiva seu potencial acadêmico. Ao mesmo tempo, interrompe essa trajetória para perseguir o desejo de se tornar atriz, conhecendo Flora Malva, veterana que também percebe nela algo além da aparência.

Vale a pena?

Set of a new movie by Paolo Sorrentino.
In the picture Celeste Dalla Porta.
Photo by Gianni Fiorito

A produção de Paolo Sorrentino pode até enganar os mais desatentos com as imagens promocionais focadas na beleza de Celeste Dalla Porta, Daniele Rienzo e Dario Aita. Mas aqui não existe um romance idealizado, e sim uma narrativa sobre identidade, culpa, amadurecimento e independência.

Parthenope fascina justamente por nunca parecer totalmente compreendida, nem pelo espectador e nem por ela mesma. Ela sente o peso de ter se rendido ao charme de Sandrino e de carregar parte da culpa pela morte de Raimondo, mas isso jamais a impede de seguir em frente.

E conforme o longa avança, fica ainda mais evidente que Parthenope representa a própria Nápoles. Assim como a cidade, ela é bonita, caótica, melancólica, sedutora e impossível de decifrar completamente.

Sua inteligência acaba sendo muito mais marcante do que sua beleza. Seja na vida acadêmica, na tentativa de seguir carreira artística ou nos relacionamentos que constrói ao longo dos anos, Parthenope continua avançando, mesmo sem possuir todas as respostas para si mesma.

Nos momentos finais, já mais velha e aposentada, agora interpretada por Stefania Sandrelli, a personagem finalmente parece fazer as pazes com a cidade que lhe deu o nome. E talvez este seja um dos maiores tesouros do filme.

Definitivamente, “Parthenope – Os Amores de Nápoles” não é uma obra que irá agradar todos os públicos. Ainda assim, Paolo Sorrentino transforma a melancolia e a inquietação de sua protagonista em um retrato fascinante de Nápoles, criando um filme que encontra beleza justamente em sua complexidade.

Ficha técnica

Nota: 4,5 (de 5)

Parthenope – Os Amores de Nápoles

Direção e Roteiro: Paolo Sorrentino

Produção: Lorenzo Mieli, Anthony Vaccarello, Paolo Sorrentino e Ardavan Safaee

Direção de Arte: Carmine Guarino

Fotografia: Daria D’Antonio

Montagem: Cristiano Travaglioli

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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