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‘Zafari’ transforma a crise venezuelana em fábula distópica sobre fome, instinto e sobrevivência

“Quantos dias você consegue ficar sem comer antes de se transformar em um animal selvagem?”
A pergunta ecoa como chave dramática de Zafari, novo longa da cineasta Mariana Rondón, que estreia nos cinemas brasileiros em 5 de fevereiro, com distribuição da Vitrine Filmes e coprodução brasileira da Klaxon Cultura Audiovisual.

Conhecida por uma filmografia atravessada pelas feridas sociais e políticas da Venezuela, Rondón radicaliza o olhar em seu sexto longa-metragem ao imaginar um país à beira do colapso total. Em Zafari, a distopia não está no futuro distante, mas num presente reconhecível, onde a escassez de comida, água, energia e regras sociais empurra personagens para um território cada vez mais animalesco.

Um hipopótamo no centro do colapso

O personagem mais bem alimentado do filme não é humano. É o hipopótamo recém-chegado ao pequeno zoológico de Caracas que dá nome à obra. Enquanto famílias inteiras enfrentam a fome, ele come bem, engorda e vira objeto de fascínio, desejo e ressentimento.

Ao redor dele orbitam duas famílias em queda livre. Uma, de classe alta, vê seus antigos privilégios ruírem junto com o país. A outra, vinda das camadas populares, decide abandonar qualquer pacto social que já não faz sentido. O contraste escancara a pergunta central do filme: o que resta da moral quando a sobrevivência vira prioridade absoluta?

Rondón define Zafari como uma fábula distópica. Segundo a diretora, a chegada do animal a um espaço supostamente idílico faz emergir impulsos primários como fome, medo e desejo. A vida cotidiana se torna grotesca, e uma ética cada vez mais frágil passa a guiar as ações. O espectador é convidado a se enxergar nesse espelho desconfortável, observando os personagens enquanto eles observam uns aos outros, entre fascínio, horror e excitação.

Fome como experiência física e cinema de gênero

A roteirista Marité Ugás, parceira histórica de Rondón, explica que a aproximação com o suspense e o terror foi uma escolha consciente. Para ela, trabalhar a fome como sensação física era essencial para que o filme atingisse seu impacto. O gênero surge como ferramenta para traduzir corporalmente uma crise que costuma ser tratada apenas em números e estatísticas.

O resultado é um filme que tensiona constantemente os limites entre humano e animal, civilização e instinto, cotidiano e pesadelo.

Circulação internacional e chegada ao Brasil

Zafari teve sua estreia mundial na seção Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián e passou por festivais na Alemanha, Grécia, Índia e Brasil. A primeira exibição nacional aconteceu na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Com elenco que mistura atores profissionais e não profissionais, o longa é uma coprodução entre Venezuela, Brasil, Peru, México, França, Chile e República Dominicana. A chegada ao circuito comercial brasileiro acontece em 5 de fevereiro, reforçando o espaço que o cinema latino-americano contemporâneo vem ocupando nas salas do país.

Uma diretora marcada pela história recente da Venezuela

Nascida em Barquisimeto, Mariana Rondón estudou animação em Paris e se formou pela Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba. É fundadora da produtora Sudaca Films e construiu uma carreira marcada por narrativas que cruzam memória, política e identidade.

Entre seus filmes mais reconhecidos estão Postais de Leningrado (2007) e Pelo Malo (2013), vencedor da Concha de Ouro no Festival de San Sebastián. Após Zafari, a diretora lançou Ainda é Noite em Caracas (2025), exibido nos festivais de Veneza e Toronto.

Uma distopia que não parece tão distante

Sem recorrer a grandes efeitos ou futurismos explícitos, Zafari constrói uma alegoria potente sobre sociedades em colapso. O filme observa como a fome corrói pactos, dissolve moralidades e transforma relações em disputas de sobrevivência.

É um cinema incômodo, físico e político, que dialoga diretamente com o presente latino-americano e global. Ao colocar um hipopótamo bem alimentado no centro do caos humano, Rondón cria uma imagem difícil de esquecer e ainda mais difícil de ignorar.

Zafari estreia nos cinemas brasileiros em 5 de fevereiro.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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