Novo filme de Daniel Porto, A Miss leva o universo dos concursos de beleza para as telonas a partir de uma dinâmica familiar bastante reconhecível. Uma mãe revive em sua filha um sonho interrompido na infância, enquanto o filho cresce à sombra desse mesmo desejo.
Sob uma ótica queer, A Miss pode ser lido como uma parábola sobre mães que projetam nos filhos aquilo que não conseguiram viver. Seja forçando aulas de balé, organizando festas de quinze anos ou insistindo em trajetórias que nunca partiram realmente das crianças. Quem nunca viu algo assim por aí?
No centro da história está Iêda, vivida por Helga Nemetik, uma ex-miss que hoje trabalha como cabeleireira e deposita na filha Martha, interpretada por Maitê Padilha, a missão de realizar o sonho que ficou pelo caminho. Controlando sua alimentação e inscrevendo-a compulsivamente em concursos, Iêda ignora os sentimentos da filha em nome dessa obsessão.
Enquanto isso, Alan, o irmão gêmeo de Martha, vivido por Pedro David, cresce sem restrições aparentes, mas carrega o incômodo de ver toda a atenção da mãe concentrada na irmã.
O sonho e o desejo

Tudo muda quando Martha acredita haver um intruso em casa e descobre que Alan se veste de mulher quando está sozinho. Enxergando ali uma chance de escapar do concurso, ela passa a ver no irmão a possibilidade de realizar o sonho da mãe sem precisar assumir esse papel.
Alan hesita no início, mas acaba aceitando a ideia, não apenas como plano, mas como uma forma de acessar o carinho que sempre sentiu ser exclusivo da irmã. A questão passa a ser como fazer isso funcionar sem que a mãe perceba.
É nesse ponto que entra o tio Athena, interpretado por Alexandre Lino, colega de trabalho de Iêda no salão e que se passa por um cabeleireiro gay. Ele acaba se tornando a peça-chave para transformar Alan em Martha no concurso de Miss Grajaú.
Cinderela

Com um plano improvisado para manter a mãe ocupada, os irmãos fogem para o salão em busca da ajuda do tio. O que parece uma completa loucura acaba se tornando possível. Enganar Iêda no dia do concurso e trocar os dois momentos antes de subir ao palco.
Alan então precisa aprender a andar, se comportar e convencer todos de que é Martha. O plano funciona melhor do que o esperado. Ele se sai muito bem no desfile, conquista o público e vence o concurso de Miss Grajaú.
Relação de mãe e filho

A vitória, no entanto, leva à revelação. Iêda descobre que foi o filho quem se passou pela filha e, para surpresa geral, o momento não termina em punição ou ruptura. Pelo contrário. Ela passa a abraçar o sonho de Alan e decide treiná-lo para ir ainda mais longe, agora mirando o título de Miss Rio de Janeiro.
Com a casa aparentemente em paz, fica a pergunta. Esse sonho, agora compartilhado, finalmente poderá se realizar?
Opinião

Com elenco carismático, roteiro ágil e uma dramédia direta ao ponto, A Miss constrói uma história simples, mas muito eficiente ao longo de suas quase duas horas. Maitê Padilha e Pedro David brilham como Martha e Alan, e grande parte da credibilidade do filme vem da cumplicidade e da naturalidade da relação entre os dois em cena.
Um dos maiores acertos está em não transformar a trama em algo somente sobre a orientação sexual do Alan. A escolha dele de se vestir de mulher é tratada com naturalidade, sem a necessidade de rótulos ou explicações.

Helga Nemetik entrega uma Iêda intensa e curiosamente divertida. Em alguns momentos, sua atuação lembra a energia da atriz Júlia Rabello, especialmente na forma de impor ordem à casa e discutir com os filhos. Aos poucos, a personagem revela as mágoas de um sonho interrompido e encontra, nessa relação com os filhos, uma possibilidade de reconexão.
Alexandre Lino, como o tio Athena, traz leveza e humor à narrativa. Vivendo o medo constante de que suas clientes descubram que ele não é gay, o personagem funciona como um contraponto cômico essencial e completa bem o trio central.
Mesmo com uma trama simples, A Miss se destaca pela forma como é conduzido. O arco de reconciliação familiar e os diálogos naturais sustentam o filme com honestidade emocional. Daniel Porto equilibra humor e delicadeza ao tratar temas como gênero e afeto sem didatismo, entregando um filme leve, respeitoso e sensível.
Mais do que levar concursos de beleza ao cinema, A Miss se destaca por revisitar relações familiares longe dos rótulos tradicionais e por transformar a realização de um sonho em algo compartilhado e, finalmente, ressignificado.
Ficha técnica

Nota: 4 (de 5)
A Miss
Direção e roteiro: Daniel Porto
Elenco: Helga Nemetik, Maitê Padilha, Pedro David, Alexandre Lino
Gênero: Dramédia
Ano: 2026
País: Brasil
Distribuição: Olhar Filmes
Estreia nos cinemas: 26 de fevereiro de 2026
Agradecimentos a Olhar Filmes pelo convite para produção deste conteúdo


