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Crítica | Com jeitão de clássico, O Morro dos Ventos Uivantes se reinventa nas telas

Criado por Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes ganhou inúmeras versões no cinema. Seja americana, britânica, espanhola ou até mesmo japonesa, esse clássico já rompeu barreiras ao longo das décadas, incluindo uma curiosa versão “high school”, mantendo-se sempre presente na cultura pop.

Agora, em uma nova adaptação escrita e dirigida por Emerald Fennell, O Morro dos Ventos Uivantes ganha uma leitura renovada nas telonas, estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi. Longe de ser fiel ao livro, a obra aposta em uma abordagem mais sensorial, usando e abusando de efeitos visuais para traduzir emoções. O resultado é um filme com jeitão de clássico, mas que não ignora as novas gerações.

Mas a pergunta que fica é: a história de Catherine Earnshaw e Heathcliff ainda comove o público atual?

A história

Acompanhamos um homem ser enforcado publicamente em 1771. A diversão do povo ao assistir o sofrimento do condenado atravessa diferentes classes sociais, revelando um retrato cruel de uma sociedade doente.

Em paralelo, conhecemos a jovem Catherine Earnshaw (Charlotte Mellington), que vive nas terras do Morro dos Ventos Uivantes. Um dia, seu pai, o alcoólatra Sr. Earnshaw (Martin Clunes), traz para casa um garoto, tratado quase como um animal de estimação para sua filha.

Catherine nomeia o menino de Heathcliff (Owen Cooper), em homenagem ao irmão falecido, e assim nasce uma amizade intensa entre os dois. Ela tenta ensiná-lo a ler, enquanto ambos se tornam grandes confidentes. Também conhecemos Nelly Dean (Vy Nguyen), filha ilegítima de um lorde, que trabalha cuidando de Catherine.

O tempo passa, e Catherine e Heathcliff crescem, agora interpretados por Margot Robbie e Jacob Elordi. Mesmo adultos, os dois ainda carregam uma relação quase infantil, brincando e ocupando aquele território isolado como se o mundo exterior não existisse. Aqui, é até justo comparar com A Lagoa Azul, com jovens isolados descobrindo sentimentos que ainda não sabem nomear.

A grande questão é que, em O Morro dos Ventos Uivantes, ambos sabem exatamente qual é o seu lugar na sociedade. Com o pai falido e afundado no alcoolismo, Cathy entende que precisa se casar com um homem rico, mesmo amando Heathcliff.

É assim que ela passa a frequentar a casa dos vizinhos Edgar Linton (Shazad Latif) e Isabella Linton (Alison Oliver). Ao se machucar ao escalar um muro, Cathy acaba permanecendo seis semanas na casa de Edgar. Ao retornar, já espera que ele a peça em casamento. Em confidência a Nelly, revela que tudo faz parte de um plano e que jamais poderia se casar com quem realmente ama, Heathcliff, pois isso os levaria à ruína.

Heathcliff escuta parte dessa conversa. Em silêncio, pega um cavalo e foge. Cathy fica confusa, dividida, e reluta em aceitar o casamento com Edgar.

Um ano se passa. Cathy finalmente se muda para a propriedade de Edgar e se entrega àquela vida. Casados, o tempo avança, e temos um salto de cinco anos com o retorno de Heathcliff, agora rico e com a aparência de um verdadeiro lorde.

Cathy fica fascinada ao reencontrá-lo, ainda mais quando ele começa a comprar as terras de seu pai. Ao mesmo tempo, Isabella também se apaixona por Heathcliff, tentando a todo custo chamar sua atenção, o que desperta o ciúme da própria Cathy.

Mas Heathcliff retorna com seus próprios planos. Mesmo apaixonado por Cathy, ele não aceita ter sido trocado por Edgar por causa de posses. Fica a dúvida se Isabella pagará o preço das escolhas de Cathy.

Um clássico que atravessa gerações

Desde sua publicação no século XIX, O Morro dos Ventos Uivantes recebeu inúmeras adaptações ao redor do mundo. Esta nova versão tenta se reinventar em meio a essa vasta tradição.

A grande sacada de Emerald Fennell está em transferir a experiência emocional dos personagens para os cenários e objetos. Quando vemos o quarto de Cathy preparado por Edgar, ele comenta que as paredes possuem cores semelhantes às de sua pele, com pintas e imperfeições. O sofrimento da personagem reverbera no espaço, que passa a funcionar como uma extensão de seu corpo e de sua mente.

O filme é repleto dessas escolhas sensoriais, que expandem os sentimentos dos personagens, ao mesmo tempo em que mantém um olhar clássico sobre figuras moldadas por seu tempo. Catherine, mesmo envelhecendo, não deixa de soar ingênua, lembrando Scarlett de E o Vento Levou. Sua forma de expressar sentimentos carrega uma inocência típica do cinema clássico. Margot Robbie encontra o equilíbrio ao interpretar uma Cathy que, mesmo submissa, questiona e dobra as regras de uma sociedade rígida.

Jacob Elordi surge inicialmente irreconhecível como Heathcliff. Seu personagem começa com um tom vingativo, lembrando O Conde de Monte Cristo, mas seus planos se revelam muito mais dolorosos e calculados. Owen Cooper, em sua versão infantil do personagem, se destaca ao transmitir inocência e, ao mesmo tempo, uma compreensão precoce das leis sociais que o cercam.

Confesso que não li o livro recentemente nem comparei com outras versões, mas, sendo bem franco, O Morro dos Ventos Uivantes funciona como uma adaptação clara e acessível. Mesmo soando excessivamente clássico e, em alguns momentos, arrastado, o filme consegue atualizar as jornadas de seus personagens sem descaracterizá-los.

Parte dessa atualização vem de cenas mais explícitas da relação entre Cathy e Heathcliff após seu retorno. São escolhas que não existem no material original e que dividiram o público. Ainda assim, elas funcionam como contraste entre os desejos juvenis, o ciúme e a tentativa frustrada de manter aparências dentro das regras sociais.

O grande destaque fica para Hong Chau, que entrega uma Nelly Dean madura e estratégica. Ciente de que sua sobrevivência depende da benevolência de Cathy, Nelly manipula acontecimentos ao ocultar o retorno de Heathcliff no passado, acreditando estar protegendo Cathy de um destino inferior ao que a alta sociedade poderia oferecer. É uma das poucas personagens que age com real sensatez, e grande parte da trama só avança graças às suas artimanhas.

O Morro dos Ventos Uivantes está longe de ser perfeito. A narrativa é lenta, alguns personagens são simplificados e certas liberdades criativas podem afastar os mais puristas. Ainda assim, com um grande elenco e uma história que atravessa gerações, o filme encontra um brilho próprio. Com mais erros do que acertos, é justamente essa identidade que torna esta adaptação diferente das demais e que, por si só, já justifica a ida ao cinema.

Ficha técnica

Nota: 3,5 (de 5)

O Morro dos Ventos Uivantes

Título original: Wuthering Heights
Direção e roteiro: Emerald Fennell
Baseado no romance: Wuthering Heights, de Emily Brontë
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver
Gênero: Drama romântico / Drama de época
Duração: 136 minutos
Ano: 2026
Países: Reino Unido, Estados Unidos

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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