Às vésperas do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em 28 de junho, a trajetória da atriz Alícia dos Anjos reforça um debate cada vez mais presente no audiovisual brasileiro: a ampliação das oportunidades para artistas trans em papéis diversos, sem limitações impostas pela identidade de gênero.
Aos 30 anos, a atriz interpreta Lúcia no curta-metragem “Barulho”, dirigido por Karen Suzane. Na produção, Alícia vive uma mulher cisgênero, papel ainda pouco comum para artistas trans no cinema nacional.
No filme, Lúcia é filha de Humberto (Carlos Francisco), um homem que enfrenta o luto pela perda da esposa, Eunice, personagem interpretada por Elisa Lucinda. A rotina silenciosa da família começa a mudar quando dois novos vizinhos sambistas chegam ao bairro, despertando conflitos, memórias e novas perspectivas sobre a dor e a superação.
Para Alícia, a oportunidade representa não apenas um avanço profissional, mas também um gesto importante para futuras gerações de artistas.
“Foi uma honra e uma oportunidade incrível, principalmente por interpretar uma mãe em cena, trabalhar com grandes nomes da história da TV e do cinema brasileiro e, sobretudo, ter a possibilidade de ser referência para outros artistas trans que virão”, afirma.
A atriz também destaca a importância de não restringir profissionais trans a personagens que abordem exclusivamente questões de identidade de gênero.
“Me sinto livre e honrada por ter a oportunidade de viver papéis que não me limitam e não me estigmatizam para interpretar apenas um tipo específico de personagem”, comenta.
Do teatro ao cinema
Nascida em Aracaju (SE) e radicada em São Paulo há mais de duas décadas, Alícia dos Anjos construiu sua trajetória artística principalmente nos palcos. Formada pelo ETA, integra as companhias Gufa e Paradoxo e acumula trabalhos em espetáculos como “Transderella”, “Periferida”, “Part-ir do Corpo”, “Com Todas as Letras – Uma Comédia Romântica Musical” e “Eu Não Queria Vir”.
Atualmente, a atriz também integra o elenco de “Nós Somos o Amanhã”, novo longa dirigido por Lufe Steffen.
Segundo Alícia, o sonho de atuar surgiu ainda na infância, em Sergipe, mas parecia distante diante das circunstâncias sociais e econômicas.
“Desde pequena sempre sonhei com a vida artística, mas via esse universo como algo muito distante. Quando tive a oportunidade de participar de uma campanha publicitária, esse sonho reacendeu. Mais tarde conheci André Lino, que me abriu as portas para o teatro profissional através do espetáculo ‘Transderella’, em 2017”, relembra.
Representatividade ainda enfrenta desafios
Apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, Alícia acredita que o cinema brasileiro ainda possui um longo caminho na construção de espaços mais diversos.
“Hoje sinto que existe muito mais representatividade do que há quase dez anos, quando comecei. No cinema, porém, ainda temos muito a conquistar. Seguimos buscando ocupar novos lugares”, afirma.
Sobre “Barulho”
Com elenco inteiramente negro, “Barulho” reúne nomes como Dan Ferreira, Vitor Britto, Anne Belize, Joyce Bella, Mihh Moraes, Veto Martins e participação especial de Elisa Lucinda.
A diversidade também está presente nos bastidores da produção. O roteiro e a coprodução são assinados por JulyFrans e Leonardo Lumas, reforçando a presença de profissionais LGBTQIAPN+ na equipe criativa.
Em circulação pelo circuito de festivais, o curta estreou em março durante uma sessão especial do Cine 72, em Minas Gerais. Desde então, passou pelo II Festival Curta Aparecida, em Goiás, e foi selecionado para o 8º FestCine Pedra Azul International Film Festival, no Espírito Santo, além do 3º FestFlávio – Festival Nacional de Curtas Flávio Migliaccio, no Rio de Janeiro.
A estreia internacional acontecerá em agosto, durante o FINCI – Festival Internacional de Nuevo Cine Independiente, na Argentina.
“Barulho” é patrocinado pela BB Seguros, produzido pela Maruti Blue Produções, com produção associada de Tina Tigre e distribuição da Tarrafa.

