Como um país aprende a conviver com a própria violência quando ela atravessa gerações, corpos e silêncios familiares? É a partir dessa pergunta incômoda que A Vida Secreta de Meus Três Homens se constrói. O novo longa de Letícia Simões chega aos cinemas brasileiros em 5 de março, propondo um encontro improvável entre memória íntima e história coletiva, sem oferecer respostas fáceis.
O filme parte de figuras reais da família da diretora — avô, pai e tio — transformadas em fantasmas que se reúnem para revisitar o passado. Não como reconstituição histórica tradicional, mas como fabulação política: uma tentativa de ouvir aquilo que nunca foi dito, mas que continua ecoando no Brasil contemporâneo.
Três homens, uma herança comum

Em cena estão Fernando, Arnaud e Sebastião, personagens inspirados em trajetórias marcadas por diferentes formas de violência. Fernando foi colaborador da ditadura militar; Arnaud, ainda adolescente, integrou um grupo de justiceiros; Sebastião, fotógrafo negro e gay, teve sua vida atravessada pela perda e pelo apagamento. Eles são interpretados por Guga Patriota, Giordano Castro e Murilo Sampaio, formando um trio que não busca redenção, mas confronto.
A condução desse encontro cabe à narradora vivida por Nash Laila, figura que transita entre o testemunho, a escuta e a mediação. É por meio dela que o filme costura as vozes do passado e explicita o que une esses homens: não laços afetivos diretos, mas a experiência compartilhada da violência como estrutura social, política e emocional.
Cinema como escuta e invenção
A origem do projeto está ligada ao percurso anterior da diretora, especialmente ao ensaio autoficcional Casa, no qual Letícia já investigava conflitos geracionais dentro da própria família. Durante essa pesquisa, o contato com o arquivo fotográfico de Sebastião abriu novas camadas da narrativa: imagens de um Brasil do século XX que não apareciam nos álbuns oficiais, nem na memória familiar preservada.
Em vez de tratar essas fotografias como provas, o filme opta por interrogá-las. O gesto central não é explicar o passado, mas criar acontecimentos em torno dele. Como a própria diretora sugere, trata-se menos de fazer o passado falar e mais de aprender a escutá-lo, mesmo quando ele permanece silencioso.
Um cinema íntimo que aponta para fora
Com 75 minutos, produção da Carnaval Filmes e da Poema Tropical, o longa reafirma o cinema de Letícia Simões como um espaço onde documentário, ficção, poesia e ensaio se misturam sem hierarquia. Não há interesse em conclusões fechadas ou discursos didáticos. O que o filme propõe é um deslocamento: olhar para a história do Brasil não a partir de grandes eventos, mas de vidas comuns atravessadas por escolhas, omissões e violências normalizadas.
Depois de circular por festivais como a Mostra Tiradentes, Hot Docs e RIDM (Montreal), A Vida Secreta de Meus Três Homens chega ao circuito comercial como uma obra que desafia o espectador a ocupar um lugar ativo.

