Quando os videogames ganharam seus primeiros jogos em 3D, vira e mexe apareciam bugs ou easter eggs escondidos em paredes que não eram simplesmente paredes. E foi exatamente essa sensação que Backrooms popularizou na internet. Agora, sua adaptação para o cinema dribla um dos maiores desafios das produções baseadas em virais: a fama repentina costuma condená-las ao fracasso nas telas. Memes envelhecem rápido, e creepypastas geralmente funcionam melhor em seu habitat natural, a internet. Ficava a dúvida se Backrooms conseguiria sobreviver à experiência coletiva de uma sala de cinema. Felizmente, Kane Parsons entende sua própria obra como ninguém e conseguiu transportar para as telas tudo aquilo que tornou sua criação tão perturbadora.
Mas o que é Backrooms?
Surgido como um viral no YouTube, Backrooms explorava o desconforto provocado pela familiaridade. Pela sensação de reconhecer aqueles ambientes e salas vazias sem saber exatamente de onde. Era um horror construído a partir de uma nostalgia distorcida, do sentimento de estar em um lugar onde você não deveria estar.
E é exatamente esse conceito que precisamos ter em mente para entender o filme como um todo.
Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, é um homem preso ao peso das próprias escolhas. Divorciado e transformando sua loja de móveis em seu novo lar, ele passa a ser atormentado por constantes quedas de energia e contas de luz extremamente altas. Mary, vivida por Renate Reinsve, é a terapeuta de Clark e também carrega feridas emocionais que jamais conseguiu superar completamente. O relacionamento entre os dois reforça a ideia de que estamos acompanhando personagens emocionalmente fragilizados, tentando lidar com dores que insistem em permanecer abertas.
Conforme ambos mergulham nos Backrooms, o filme deixa claro que aquele labirinto não é apenas físico. Ele também é emocional.
Mas como é a história?
Conhecemos Clark, dono de uma loja de móveis que anda mais vazia do que nunca. Recém-divorciado, ele tenta reconstruir sua vida enquanto faz terapia com Mary. Ao mesmo tempo, descobre uma estranha passagem para outro lugar escondida dentro da própria loja.
Caminhando por esse ambiente desconhecido, Clark acredita inicialmente ter encontrado uma área esquecida do estabelecimento. No entanto, quanto mais avança, mais percebe que não estamos mais em Kansas.
Com o passar dos dias, Clark começa a ir e vir daquele lugar, levando consigo sua funcionária e o namorado dela para explorar cada vez mais profundamente aquele estranho mundo.
E quanto mais tempo passa ali, mais Clark parece se sentir em casa nos Backrooms do que no mundo real. Seu desaparecimento desperta a preocupação de Mary, que vai até a loja do paciente e acaba atravessando para esse universo desconhecido.
Ao reencontrar Clark, Mary percebe que as regras daquele lugar já não seguem qualquer lógica que conhecemos. Mas será que voltar para casa será tão simples assim?
Opinião

Backrooms: Um Não-Lugar é um filme que, provavelmente, quanto menos você souber sobre ele, melhor será sua experiência. Então, por mais que os curtas tenham viralizado na internet, minha recomendação é simples: pesquise o mínimo possível antes de assistir.
E talvez seja justamente aí que esteja o maior problema do filme.
A trama é fascinante, cheia de peças espalhadas que nem sempre oferecem respostas. Ao mesmo tempo em que tentamos entender o que é aquele lugar, ou melhor dizendo, aquele não-lugar, o filme parece confiar no desconforto gerado pelo desconhecido.
A única derrapada acontece justamente quando a narrativa decide explicar demais. Isso ocorre perto do final, quando já aceitamos a existência dos Backrooms e a história tenta justificar como aquelas criaturas e ambientes surgiram. É algo que ajuda a compreender melhor aquele universo, mas, ao mesmo tempo, oferece respostas para perguntas que talvez nem precisassem existir.
Ao falar sobre Kane Parsons, fica evidente que ele entrega um filme genuinamente perturbador. Seus cenários, cada vez mais estranhos e sem respostas claras, tornam a experiência ainda mais incômoda. Sua direção entende que o medo mais eficaz não nasce necessariamente do susto.
Talvez a grande sacada do filme esteja justamente na maneira como esses ambientes surgem, evocando lembranças e lugares ligados ao passado dos personagens. Aos poucos, percebemos que aquele espaço possui muito mais conexão emocional do que lógica. E é justamente isso que torna tudo ainda mais desconfortável.
Backrooms: Um Não-Lugar cresceu e conquistou fama na internet, mas sua adaptação para o cinema é mais do que competente. É uma experiência que rompe com a previsibilidade do terror contemporâneo e nos convida a revisitar aqueles cantos esquecidos da internet que, por algum motivo, continuam estranhamente familiares.
Ficha Técnica

Nota: 4,5 (de 5)
Título: Backrooms: Um Não-Lugar
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Will Soodik
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell e Avan Jogia
Gênero: Horror, Ficção Científica
Duração: 105 minutos
País: Estados Unidos
Distribuição: Imagem Filmes (Brasil)
Estreia no Brasil: 28 de maio de 2026
Agradecimentos a Imagem Filmes pelo convite pra produção deste conteúdo

