Novo filme do diretor e roteirista Felipe Sholl, Ruas da Glória é uma produção queer nacional ambientada no Rio de Janeiro. A trama apresenta o bom moço e professor de literatura Gabriel (Caio Macedo), em uma nova cidade, vivendo sem as amarras e máscaras da sociedade “careta” e tradicional.
Logo de início, fica claro que Gabriel se jogou na vida no Rio de Janeiro após romper com a família e seu padrão social. Ignorando o pai ao telefone, ele deixa evidente que quer ser feliz e viver consigo mesmo ali, onde escolheu como lar. Se ele decidiu “brincar” de pobre, como o pai acusa, não dá pra saber. Mas que quer viver livre e bem consigo mesmo, isso fica evidente desde o começo.
É nesse contexto que Gabriel se joga nas ruas e descobre o centro do Rio, cercado por garotos de programa e pelo bar Glória. Ao entrar na noite carioca, ele vê na pista um rapaz que chama sua atenção de imediato. A paixão vem no primeiro olhar, mas é só na segunda noite que ele consegue finalmente conversar com o tal rapaz, sempre tão disputado.
Estamos falando de Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa uruguaio que vive na região. A conexão com Gabriel é imediata, e a relação parecia caminhar para um “felizes para sempre”.
Só que o tempo passa e, um dia, Adriano desaparece. Gabriel entra em desespero e começa a investigar. Vai até o antigo apartamento, aluga o lugar, usa as roupas dele, mas não encontra respostas. Não sabe se Adriano voltou para o Uruguai, fugiu ou simplesmente sumiu.
E tudo piora quando um garçom localiza Adriano e Gabriel descobre que ele está “casado” com outro rapaz, vivendo seu próprio “felizes para sempre”.
Resta a dúvida: Gabriel deve insistir em ir atrás de Adriano ou finalmente tentar ser feliz?
Opinião

Ruas da Glória não é um conto de fadas, e claramente nunca quis ser. Com um protagonista inicialmente ingênuo, o filme acompanha Gabriel se adaptando à nova vida enquanto tenta entender o amor que o liga a Adriano.
Um dos pontos fortes é a “família” que acolhe Gabriel. Mônica, interpretada por Diva Menner, dona do bar Glória, funciona como uma figura quase materna. Ao lado de Mateus (Alan Ribeiro), Laila (Jade Sassará) e Sandro (Aliprandini Roger), ele encontra pertencimento. Mônica puxa sua orelha, alerta sobre Adriano, mas o filme mostra que enxergar a realidade nem sempre é simples.
Com um roteiro intenso, que flerta diretamente com desejo e sexo, Ruas da Glória mostra como até o bom moço pode sucumbir. Gabriel, por mais racional que seja, se entrega cegamente à paixão por Adriano, aceitando tudo, inclusive a vida dele como garoto de programa em ambientes onde ele próprio está presente.
Isso não significa que sua nova “família” seja convencional. Com a libido sempre à flor da pele, o filme explora emoções, perdas e o processo de se desprender do passado.
E mesmo com Adriano seguindo em frente, Gabriel se percebe viciado nele, numa busca por respostas. Sua luta em tentar se sentir vivo vem em querer encontrar Adriano de qualquer maneira.
Adriano, por sua vez, carrega um histórico nebuloso desde sua chegada ao Brasil, construindo um personagem que nunca se entrega por completo. E o Gabriel entende isso, tentando fazer de tudo que ele se entregue mais, por mais que isso signifique mais e mais atritos entre eles
Curioso e diferente, Ruas da Glória é uma produção da Syndrome Films, em coprodução com RioFilme e Telecine, com distribuição da Retrato Filmes.
Ficha Técnica

Ruas da Glória (2025, Brasil)
Direção e Roteiro: Felipe Sholl
Elenco: Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini
Produção: Syndrome Films
Coprodução: RioFilme, Telecine
Distribuição: Retrato Filmes
Fotografia: Léo Bittencourt
Montagem: Luisa Marques
Música: Orlando Scarpa Neto
Estreia: 2 de abril


